Quinta-feira, Julho 10, 2008
Segunda-feira, Julho 07, 2008


Quinta-feira, Junho 19, 2008
com netos amigos destes...
oito anos, pá, oito anos...

Adenda: o dinossauro MagMag Frascatti:
>
(entretanto, só para dizer que acrescentei ali em baixo vários posts de 2005 que estavam no passeai inicial - só é pena terem-se perdido os comentários; alguns, verdadeiras tertúlias de mães amalucadas)
Domingo, Junho 01, 2008
diálogo absolutamente verídico (juro) *
Mãe: Ah sim? E o que é que compraste?
Pai: Para a Beatriz comprei um “Guia Sexual para Adolescentes” (Dom Quixote), o que é que achas?
Mãe: Err… Não sei, esses livros, sabes como é, às vezes vão um bocadinho longe de mais.
Pai: Por isso é que ainda não lho dei, queria que visses primeiro.
Mãe: Então dá cá, deixa-me dar uma vista de olhos.
(…)
Mãe: “O que é o aparelho genital masculino”, “O que é o aparelho sexual feminino“, “O que é a virgindade”, “Pensos ou Tampões?”, parece-me bem…
(…)
Mãe: Espera aí! “A fase do orgasmo”, “A importância dos jogos sexuais antes do coito”, “O que é ser bom/boa na cama”, “Fantasias sexuais”, “Felattio e cunnilingus”?!
Pai: Pois, se calhar é melhor…
Mãe: Pois, se calhar.
Pai: Dou-lhe antes este aqui, com o porquinho cozinheiro na capa, “As receitas dos meus amigos gulosos” (Editorial Verbo), afinal, já está na altura de ela começar a aprender a cozinhar qualquer coisa e a ser mais independente.
Mãe: Ah pois está, pois está… Boa ideia!
Pai: Pois é.
Mãe: Sim.
Pai: Pois.
* ou eu também quero escrever um post sobre as editoras e a feira do livro
Segunda-feira, Maio 26, 2008
a pestilência do fim do dia
Eu: Ai Diogo, cheiras tão mal, abre-me a tua janela por favor!
Ele: Estive a jogar futebol, mãe, estou todo suado, não tenho culpa…
Eu: Eu sei que não tens culpa, mas olha que é difícil de aguentar…
Ele: Ah mãe, eu gosto: É cheiro a HOMEM!
Terça-feira, Maio 13, 2008
os espertinhos/sacanas/estafermos (riscar o que não interessa) *
Estão a ver aqueles momentos em que nos chateiam a medula porque querem e querem e querem uma coisa qualquer e nós a repetir que não que não e que NÃO? E eles, Vá láaaaaa mãeeeee!, e nós, Já te disse que NÃO!. De repente toca o telefone; na pior das hipóteses é um banco espanhol a impingir um crédito; na melhor, é uma amiga que tem novidades para contar. E a gente, ingénuas parvas, instalamo-nos no sofá, ansiosas por sabermos quem está mais gorda e quem anda com quem. Eles põem-se à espreita, estrategicamente à espreita. Esperam pacientemente que passe a fase dos gritinhos de reconhecimento mútuo e dos vinte e dois Como estás querida?, e que a gente engrene e se entrose na conversa por forma a que seja quase impossível parar de repente, tipo sexta metida. E é então que atacam sem dó nem piedade: Mãeeee! Mãeee! Posso fazer/comer/ver/ aquilo que te pedi há bocado? Posso, mãe, posso? Sim? Sim? E puxam-nos pelas mangas. E espetam-nos os dedos no cotovelo. E nós, sem lhes podermos oferecer uma lamparina que parece mal, ainda lhes arremelgamos os olhos, pomos a mão no bocal e sussurramos um Não! enraivecido, mas eles não desistem, sabem que estão em vantagem. Mal nos viramos para o bocal , Ai sim? Tu não me digas que ela fez isso, a cabra!, e lá estão eles outras vez, com um Mãeeee! agora mais alto, e as carinhas de súplica coladas ao nosso nariz ou aos nossos ouvidos, enquanto a amiga do lado de lá descreve as acrobacias eróticas que pratica com o namorado novo - o que faz com uma minúcia que visa apenas alimentar o propósito da nossa inveja de esposas em estado de conserva, claro. Ao fim de alguns (longos) segundos do mais puro, indecente e descarado assédio filial, e da mais pura e contida raiva maternal, todas cedemos: todas! E quando desligamos, constatamos sem surpresa que o estafermo já se empanturrou com três bollycaos e as gomas todas do Natal, já bebeu duas coca-colas, passou seis níveis na playstation, mamou três episódios de Wrestling na SIC Radical, transformou a sala em ringue de batalha, and so on and so on and so on. E nós nada dizemos, culpadas por não lhes termos dado a devida atenção nas últimas duas horas (sacanas).
* Post dedicado a uma querida amiga que me compreende especialmente, pois quando falamos ao telefone uma com a outra somos sempre violentamente atacadas pelos respectivos rebentos-monstro e nunca conseguimos acabar decentemente uma conversa.
Domingo, Abril 20, 2008
fascista
- Mãe, tu és fascista?
- ?!
- Sim, perguntei-te se és fascista.
- Olha Diogo, essa pergunta é tão parva, que francamente, nem te respondo. Ainda por cima andas a dar o fascismo em História! Se não soubesses o que era, enfim...
- É que cá em casa, às vezes, tu não permites a liberdade de expressão.
Terça-feira, Março 04, 2008
Para muitos, sou uma daquelas mães, tipo, desnaturadas, que não têm a menor paciência para acompanhar os filhos nos progressos escolares. Gosto pouco de preencher os hiatos deixados pela escola e de participar activamente na realização de trabalhos de casa, de trabalhos de grupo, de trabalhos em geral. Acho que, salvo um ou outro conselho ou tira-dúvidas, eles devem fazer as coisas sozinhos, pois a minha escolaridade já a fiz há muito tempo e não me apetece por aí além rememorá-la, além de que grandes ajudas neste domínio fazem mais mal que bem, pois as criancinhas não desenvolvem. Da mesma forma, acompanhá-los nas actividades extra-curriculares, agora tão de moda para os preparar para esta sociedade super-hiper competitiva, é geralmente uma seca. Por exemplo, as aulas de natação num passado ainda recente: um menino de dois anos, outro de cinco e uma menina de oito. Vestir, despir, touquinhas, calções, fato de banho, chinelos, tampões. Guardar tudo no cacifo, enviar um para cada piscina. Correr entre elas durante cinquenta minutos, espreitar no vidro para que cada um, quando olhasse para cima, visse a mãe babada a cada incipiente braçada e espanejadela à ganso (mas na verdade a ansiar por um café e uma revista no restaurante do lado). De repente, eu naquela correria e a aula já acabada. Ir buscá-los, a roupa molhada nos sacos, os duches, secar-lhes o corpo, vesti-los (calçar-lhes as meias, ah! como eu ODEIO calçar-lhes as meias…), secar-lhes o cabelo, tê-los prontos para saírem, por fim, carro, cadeirinhas, cintos. Chegar a casa a achar que poupei numa ida ao ginásio, pois já treinei o suficiente nas duas horas antes. Tenham dó: aquilo era um inferno. Agora já se vestem sozinhos, mas andam sempre a inventar coisas novas às quais é preciso ir pôr e buscar, o que é só por si uma enorme maçada. A algumas, somos até forçados a assistir e a dizer-lhes que são muito bons e que evoluíram imenso, enquanto pedimos mentalmente a Deus perdão pelo pecado da mentira. Assistir aos jogos, aos intermináveis jogos. De futebol, andebol, voleibol. Hoje é o ténis, amanhã o lacrosse. Ainda por cima eu, que detesto desporto em geral, e coisas com bola em particular. Houve, no entanto, uma altura em que a minha filha fez parte da equipa feminina de basquete da escola. Não jogavam nada e iam aos outros colégios levar trepas monumentais das outras equipas. Os jogos eram aos sábados de manhã, altura de ir à pastelaria tomar o pequeno-almoço, ficar a ler o Expresso e depois ir à praça – aquilo não dava jeito nenhum. Mas eu lá estava, indefectível, com a miúda para aqui e para ali, a apoiar, a incentivar, quase uma cheerleader do princípio ao fim dos jogos. É claro que, bom, para tanto, talvez tenha contribuído o facto de o setôr de ginástica (simultaneamente o treinador, o árbitro e o organizador-mor daqueles lamentáveis eventos) ser assim uma espécie de semi-deus. É que nem vos passa, juro.
Quarta-feira, Janeiro 23, 2008
João: aquele estúpido do Bernardo já me anda a irritar... É um ganda gay, sempre com as menininhas lá do colégio todas atrás dele.
Diogo: Se anda com as miúdas todas atrás, é mas é o contrário, qual gay...
João: É gay, ah pois é - está sempre a cantar as músicas da Floribela.
Terça-feira, Janeiro 08, 2008
Pronto, agora é que é: passei a engrossar as fileiras dos desgraçados que, encolhidos nos assentos do carro e a fungarem de sono, aguardam a saída das discotecas dos filhos adolescentes que não têm idade para ter carta nem maturidade suficiente para irem com os amigos para casa. Sou, portanto, mais uma daquelas pobres coitadas que têm inteligência para perceberem que é melhor dar-lhes alguma liberdade que nenhuma (para que não lhes aconteça o que acontecia às meninas de antigamente quando se livravam das freiras), mas não a inteligência suficiente para conseguirem delegar nos outros o transporte da criança, o que tem como consequência nunca acalmar o pito antes das quatro, cinco da manhã. E esta pouca inteligência que me sobra é tão, mas tão, limitada, que nem confio nas mães das amigas da miúda para a trazerem - algumas bem mais idóneas que eu - e, muito menos, nos pais, nos avós, nos tios ou nos táxis. Feita parva, acho que tenho que ser EU a estar lá às quatro da manhã, a cheirar-lhe o bafo. Basicamente, uma totó meio grogue, a tentar perceber se a roupa está toda no lugar, se a voz não lhe cambaleia, se está bem-disposta e se correu tudo bem. O que é um exercício um bocado espúrio (se cheirar a álcool ou a tabaco, faço o quê, hã? um drama?). Bom, mas isto para vos dizer que somos um grupinho digno de pena, acreditem. Para ali estamos, alguns de nós de gabardina sobre o pijama, à espera da saída das crias, quase sempre umas ingratas de má-cara porque queriam ter ficado mais uma hora porque “agora é que aquilo estava bom”. Os bocejos gigantescos, o ar desinfeliz e os quatro piscas ligados, são o santo e senha dos pais das três da manhã. Ou dos das quatro da manhã (por enquanto, pertenço à primeira leva, a dos que têm filhos entre os 13 e os 15). A hora combinada para a recolha - 3 da manhã - é tramada, porque não é carne nem é peixe e requer preparação prévia. É que não sei se estão a ver: sexta-feira, podre de cansaço, fui jantar fora e tal mas agora estou mortinha por aterrar no sofá ou no colchão. Mas não, não posso. Quando olho para o relógio já é meia-noite, daqui a duas horas tenho de estar a pé: se ponho o despertador não acordo. O terror de as crias poderem ficar na rua entregues a elas próprias e sujeitas aos selvagens da nite, leva-me a espetar palitos nos olhos e a submeter-me, nas duas horas seguintes, a uma espécie de tortura chinesa: a do ping ping infernal dos minutos. Lá para as duas, não aguento e cabeceio; até costumo sonhar um bocadinho, com pastagens verdes e bois e assim, até o despertador do telemóvel me fazer saltar o coração na boca, dando-me vontade de vomitar. Podem crer que, no momento em que me faço à estrada, estou mais bêbada do que um presidente russo; se a polícia me mandar parar, tenho a certeza que acuso qualquer coisa. Mau, muito mau. Só tenho uma coisa a dizer, sinceramente: obrigada, pai.
Segunda-feira, Janeiro 07, 2008
Quinta-feira, Dezembro 13, 2007
Perante um episódio especialmente confrangedor de Morangos Com Açúcar (que vejo por dever de ofício), desabafo com o Diogo, 11 anos (como agora se usa na imprensa escrita: primeiro, o nome e a seguir, a idade):
- Esta série está péssima… Antigamente, apesar de ser má, ainda trazia alguma mensagem: ou era contra as drogas, ou era a favor da integração dos deficientes ou da defesa do ambiente... Agora, é só uma data de personagens acéfalos que se roçam pelas paredes do cenário da escola, com os mais velhos a chatearem os mais novos e conversas de café num péssimo português… Não há qualquer história e os "professores" são umas amêijoas moles que só aqui estão para namorarem uns com os outros às escondidas... Até as miúdas são cada vez menos giras.
Vai o Diogo, indignado:
- Ai isso é que tem mensagem, mãe!, tem sim senhora: uma das raparigas é adolescente e está grávida; a mensagem é a de que não se deve ter relações sexuais.
(eu caladinha que nem um rato. pausa. silêncio na sala. e mais pausa. e então ele larga a bomba.)
- Bem, que não se deve ter relações sexuais sem preservativo, claro.
E estava eu indignada por, momentos antes, ter passado no intervalo dos morangos o trailer desse lixo que deve ser o filme Call Girl, onde se vêem cenas de prostituição e de sexo explícito, isto é incrível, espetarem com sexo no nariz dos miúdos às seis da tarde... santa ingenuidade a minha.
Sexta-feira, Dezembro 07, 2007
- Huhummm... De facto, tens aí umas borbulhazinhas, pode ser uma alergia a qualquer coisa, temos de pôr uma pomada.
Grita o cabeça-amarela-dez-reis-de-gente-com-a-mania-que-é-esperto do interior da casa de banho, a giboiar num banho de espuma:
- É A ADOLESCÊNCIA!
Quarta-feira, Novembro 28, 2007
o que arrasta inevitavelmente uma insuportável choradeira que faz mal ao coração e me tira anos de vida. É que não aguento, não sei. Na última a que fui, de fim de ano, o miúdo puxa da flauta a meio do coro, saca meia dúzia de notas com um evidente esforço interpretativo e eu tive que parar de filmar, pois os soluços eram tantos e tão audíveis que tremiam a imagem e abafavam a música. Não sei o que me dá quando vejo as minhas criancinhas nestas pueris exibições de talento; só sei que o auto controlo desaparece e eu fico para ali desamparada, a esconder o ranho e com um riso imbecil agrafado à cara, não vão eles pensar que eu estou é triste e desapontada, sei lá. É que, vamos lá a ver, o miúdo não é propriamente um Mozart ou um Michael Jackson em formato albino. Mas, só de o ver ali no coro, juro, com a vozinha sumida entre outras trinta vozes iguais, forma-se-me um nó na garganta, os olhos picam e as lágrimas escorrem, imensas e despropositadas. Escusado será dizer que morro de vergonha e que as minhas tentativas de disfarçar a emoção são ainda mais ridículas do que a choradeira em si, pois abro imenso os olhos para evitar as lágrimas, como se estivesse aterrorizada com o som de alguma nota mais pífia, e falo muito e alto, para mostrar que a minha agitação mais não é do que alegria. Imagino que os outros pais, pessoas geralmente de reacções normais e adequadas, à vista deste patético descontrolo, quiçá de origem hereditária, não me convidarão o miúdo para as festas de aniversário, receosos de que este desabe num pranto se se acabarem os croquetes na mesa.
Sábado, Agosto 11, 2007
Todos no carro a caminho do Algarve, a jogar o jogo das palavras. Letra F.
- Faca!
- Fotossíntese!
- Flor!
- Fábrica!
Joãozinho:
- Eu sei uma palavra, mãe, mas é uma asneira e é em inglês... Posso dizer?
- É melhor não, Joãozinho.
- Vá lá, mãe, vá lá!
- Bom...
- Fóquios !
Quinta-feira, Junho 21, 2007
Manifestações de triunfo, após concretização na baliza contrária:
7 anos: Chupa!
11 anos: Engole!
(na dúvida entre a boca cosida ou a pimenta na língua, saio de fininho; afinal, a ignorância inocente é, ainda e por enquanto, uma hipótese a considerar...)
Quinta-feira, Junho 14, 2007
14 anos: Gay?! O Ricky Martin é gay?
11 anos: Completamente, meu, não me digas que não sabias; aquela ancazinha de um lado para o outro, aquele cabelinho…
7 anos: É estranho, tem sempre umas miúdas muita giras nos vídeo clips.
14 anos: Oh mãe, gostas dos Red Hot Chili Peppers?
y anos: Gosto...
14 anos: Qual é a tua favorita?
Y anos: Hummm... acho que a Scar Tissue. E a tua?
14 anos: Ah, eu gosto daquela do Californication...Ai, que agora não me lembro do nome...
y anos: Olha lá, sabes o que quer dizer "Californication", de que palavras provém?
14 anos: Bem, sei que a primeira é "Califórnia"; a segunda deve der "vacation", ou assim. Deve ser eles que foram de férias para a Califórnia, ou qualquer coisa do género.
y anos: Pois. É isso, é.
y anos: Então, gostaram do feriado?
7 anos: Bem, meu, foi bué da fixe!
y anos: Meu?! Mas isso lá são maneiras de tratar a mãe?! Por "meu"?!...
7 anos: Ah, sim, pois, desculpa, mãe: "minha". Foi bué da fixe, minha!
Quarta-feira, Junho 06, 2007
Acabadinhos de fazer, os catorze. Há que começar a aligeirar, a deslaçar um bocado a corda e a dar alguma ordem de soltura à criança, para que não fuja de casa aos dezasseis e apareça grávida aos dezassete. Ora, a miudagem de Lisboa, hoje, "sai à noite" à sexta e invade em hordas a zona de Santos. A partir das dez da noite, a Rua das Janelas Verdes, o Largo de Santos, a Dom Carlos I e arredores, mais parecem o recreio do liceu. São às centenas, entre os onze (?!) e os vinte, e espalham-se ao longo das ruas, desde Alcântara (onde fica o Paradise Garage, uma das catedrais). Os restaurantezecos da zona regozijam-se, com a sorte grande que entretanto lhes caiu no colo: outrora quase às moscas, hoje reservam-se mesas com quinze dias de antecedência. Funcionam à base de um menu fixo; quando os miúdos são obviamente muito menores, trocam a bebida alcoólica pela sobremesa. Mas só alguns foram abençoados com essa inexplicável vantagem que é terem ficado subitamente "na moda", como o Porão de Santos, o Orange ou o Left. Discotecas, são três: o Absoluto (ou ABS), o tal Garage e o Loft. Legalmente, os miúdos não podem entrar mas, com a conivência das autoridades, convencionou-se que à sexta-feira têm livre passe. De vez em quando, uma rusga aqui e acolá baralha-lhes as voltas e, durante algum tempo, pratica-se uma aparência de legalidade, com as discotecas a exigirem escrupulosamente a identificação. Embora os tempos sejam outros e coiso e tal, fico espantada com o facto de as miúdas começarem a sair cada vez mais cedo; a minha filha tem uma colega de dezasseis anos que lhe confidenciou já estar farta da "noite", o que me parece extraordinário. Aliás, grande parte das amigas dela já se iniciou nas lides e parece que existe um certo consenso parental: saem à noite sexta-feira sim, sexta-feira não. Estamos a falar de miúdas de 13 e de 14 anos, atenção! A minha, e meia dúzia de outras com mães igualmente pouco ou nada "fixes", não sai, ponto, como está bem de ver. Dei-lhe, outro dia, a abébia de ficar até à meia-noite nos anos do melhor amigo, num bar (o Incómodo), tendo o resultado da minha surpreendente abertura sido uma dúvida insanável que girava à volta de um alegado e suposto shot, cujo destino final preferi não aprofundar, em nome da minha sanidade mental. A consequência fatal da dúvida (por via das dúvidas), e apesar das juras e súplicas, foram vários dias de castigo onde lhe foi negado o acesso a todos os gadgets electrónicos ao seu alcance (pc, televisão e rádio incluídos) e o azucrinar diário da minha consciência de mãe carrasca até ao desfazer do terrível castigo. Agora, fez anos e, como prometido algures há uns meses atrás, num dia em que eu deveria estar bêbada ou drogada, ou as duas coisas, foi sair. À séria. Foram a um dos restaurantes da moda, primeiro turno, menu infantil, com direito a discoteca até às duas da manhã. Escusado será dizer que fui pôr, buscar, pôr e buscar, e mais pôr e mais buscar, uma data de imberbes criaturas, cujos pais me acharam com cara de autocarro (e ainda bem). Está claro que não descansei antes da três da manhã, e sem qualquer proveito próprio. A providência, no entanto, resolveu dar-me um bónus: ninguém foi a discoteca nenhuma, pois foram miseravelmente "barradas", depois de pedida a identificação (tinha havido rusga uns dias antes e parece que há que alimentar a hipocrisia reinante). É claro que, o que a providência dá com uma mão, tira com a outra: a caminho de casa, e depois de vertida a frustração em cima da solícita progenitora, a criança sai-se com esta, olha, mãe, eu tenho é que arranjar um BI falso, como os dos meus amigos. Com o photoshop é fácil... Azarinho, que pela boca morre o peixe: a próxima, só lá para os vinte e um.
Quinta-feira, Maio 17, 2007
O pai vai para o estrangeiro. Na impossibilidade de o presentear atempadamente com um desenho adequado à ocasião (são muitos, os afazeres da criança: lanchar, ver os morangos, jantar, ver o canal disney, enfim, esta vida é um ferro), o Joãozinho entrega-lhe uma nota de crédito, um verdadeiro vaucher:

...assim se compromentendo a, aquando do regresso do pai, trocar o papelito por uma obra-prima. Entretanto, o pai terá que andar com o vaucher na carteira, para jamais se esquecer de que o filho é homem de sua palavra.
Quinta-feira, Maio 10, 2007
Joãozinho:
- Mãe, e se nós, no fundo, formos a banda desenhada de alguém; e se não existirmos de verdade, apenas acharmos que existimos?
- ...
- Ou, então, se formos só desenhos animados a passarem na televisão de alguém muito maior que nós?
O Diogo aparece-me com a camisola cheia de autocolantes de um boneco preto com o coração a vermelho.
- Contribuíste, foi? Com quanto?
- Dei dois cêntimos por cada um.
- Dois cêntimos? Só?!
- Então, ela disse que eu podia dar o que quisesse e não me apeteceu dar muito…
- Sabes, ao menos, para onde é que vai tanta generosidade?
- Sei! Para a prevenção das doenças cardiovasculares.
- Ena! Muito bem. E o que é que são "doenças cardiovasculares"?
- São doenças do coração, claro! Eu também vejo o House, mãe.
Segunda-feira, Maio 07, 2007
... que sempre me assalta a determinação e o lar nestas alturas (...), e na esperança de lhes gastar aquelas energias que sempre trazem a mais da escola,resolvo organizar uma sessão de ginástica pré-jantar. Enroladas as carpetes e afastados os móveis, pespegamo-nos - eu e os putos - em frente à televisão, onde ponho a correr um vídeo de workout directamente importado da amazon, com as miúdas (remakes estilosos da Jane Fonda) que fazem aeróbica naquele vídeo do "Call on me". Não sabem, não se lembram? Eu refresco-vos a memória: trata-se de uma música de merda com um esganiçado qualquer a repetir o refrão praí mil vezes, boa para os pastilhados da nite, mas dançada por um grupo de gajas do mais giro e bem feito e perfeito que pode haver, as cabras. E lá começamos, eu, a minha filha e os meus dois filhos, nos aquecimentos da praxe; alguns minutos depois, está tudo a bombar. Só que, enquanto as mulheres da casa saltam e arfam a tentar acompanhar a pose e o ritmo impecável das boazonas, embora se sintam umas miseráveis badochas, os miúdos sentam-se no sofá com os olhos fixos no ecrã, num silêncio inesperado. Então, desistem já? Estão assim tão cansados?, pergunto-lhes eu, entre dois pontapés no ar e um na auto-estima, seguidos de um quase-desmaio. Não!, respondem em uníssono, Mas é que aqui vemos melhor as miúdas!, a fazer ginástica não dá, mãe! E lá ficam, mais atentos do que se estivessem a ver o último episódio dos morangos onde explodisse o colégio da barra em peso. Entretanto, chega o pai a casa e vê-nos naqueles preparos. Olha para a nossa esfalfice saltitante e para a performance televisiva das boas, olha outra vez para nós e ri-se; depois, olha melhor para elas (muito melhor, aliás) e já não ri. Segundos depois, está sentado no sofá ao lado dos outros, a testosterona familiar toda reunida, boquiaberta e solidária, numa basbaqueira muda que mete dó. Escusado será dizer que nem chegámos à parte dos abdominais: eu e a miúda, fomos mas foi jantar."
(repost)
Elas preparam-se amorosamente para a batalha, polindo e afiando a arma com que desferirão os golpes fatais nas suas inimigas, que são todas as outras MÃES.E a arma é...tcharaaan... o boletim de saúde!
O primeiro treino da recruta é no pediatra, esse homem bom e dedicado que, ao medir e pesar a criancinha, tende sempre a preencher os gráficos com valores um nadinha acima do real, não vá a mãe do rebento passar, num ápice, de babada sorridente a dragona raivosa e incendiar o gabinete com o seu hálito de fogo. Depois, já com o boletim de saúde entre mãos, devidamente preenchidinho, elas combinam reunir-se umas com as outras e é então que estala uma daquelas guerras surdas que de vez em quando têm lugar no mundo cínico do putedo maternal... a guerra do PERCENTIL.
Para quem não sabe, o percentil é a modos que a unidade de medida pela qual se afere o desenvolvimento físico das nossas criancinhas. Os parâmetros ditos normais situam-se algures entre o 5 e o 95, e dizem respeito ao peso, à altura e à relação entre os dois. O perímetro cefálico também costuma ser usado como arma de arremesso, embora como apoio na retaguarda, porque se refere apenas ao tamanho da cabeça.
A coisa funciona tal qual os putos nos balneários da escola (sim, estamos a esse
nível básico), em que ganha o meu porque é maior que o teu (como a rábula dos Gato Fedorento, não sei se estão a ver...).
Preparadas para a refrega, reunimo-nos num café, em casa, num banco de jardim,
wherever, sacamos dos boletinzinhos e toca de atirar percentis umas contra as outras como quem dispara balas de calibre 38,ai o joãzinho está no percentil 90, o bernardinho tem um perimetro cefálico de 55 centímetros, um crânio, um génio!, o meu pedrinho nasceu no percentil 95, quatro quilos e meio de gente, vejam lá, mas já está no percentil 100, é um comilão.... Pode introduzir-se aqui um elemento complementar, (também indicativo de forma física superior do infante) o chamado índice de apgar, mas não quero transformar este post num relambório técnico sobre questões de estratégia.
Entretanto, as mães com filhos no percentil algures entre o 5 e o 50 retiram-se, derrotadas, porque, a um nível subliminar, percentil baixo é sinónimo de qualquer coisa como mãe-vaca-negligente-que-não-alimenta-a-cria, ou, então, porque não estão dispostas a ouvir expressões simpáticas como não terás nanismo na família, filha? é que é hereditário, sabes... Não há pior do que a subconsciência que subjaz a estas alegres competiçõezinhas entre mamãs: a de que somos melhores mães, quanto mais alta e bem nutrida for a nossa criancinha - e que se lixem os factores hereditários, sociais e as idiossincrasias de cada um.
Seguimos depois para a batalha final, onde já só entram os pesos pesados, ou seja, as mamãs de filhos com percentil 50-75 ou mais. E lá continuamos, com uma enorme falta de noção e de mais que fazer, a comparar comprimentos fémur-coxa, ombro-cotovelo, tamanho das mãos, número de ténis que já não servem e largura de bonés que já não cabem... a atirar perímetros cefálicos, índices vários e percentis à cara umas das outras. O pior é que, como diz a do anúncio, por mim, passava a tarde
inteira naquilo.
Haja cú para nos aturarmos, irra."
(repost)
- Mãe, com que idade deste o teu primeiro beijo na boca?
...
A mentirinha piedosa (fiquei cheia de pena de mim) sai-me de rajada, sem pensar um segundo:
- Ai filha, aí pelos quinze anos, vá!...
(e eu, a lembrar-me que foi quase aos treze - onde ela se encontra agora - que o
M. me empurrou contra a cerca do campo de jogos e, enquanto o contínuo, distraído, ralhava com um grupo mal-comportado no outro canto, me enfiava a língua pela boca abaixo sem eu ter tido tempo de soltar um ai)
É claro que ela acreditou, até porque tinha acabado de fazer a mesma pergunta ao pai, que, algures entre a tontura e o desmaio, lhe respondera, aos trinta e dois.
(continua, infelizmente, continua)"
(repost)
Domingo, Maio 06, 2007
Segunda-feira, Abril 30, 2007
(... ou duas... ou dez....)
Eu sou uma daquelas mães pseudo espertalhonas que pensa que, se alguma coisa tem de lhes acontecer, ao menos que seja debaixo do meu tecto e sob as minhas asinhas tão protectoras que mais parecem as asas de um boeing. Vai daí, quase tudo lhes é permitido: todos os amigos são bem vindos e admito, com alguma assiduidade, festas, pijama parties, sessões nocturnas de filmes de terror, trabalhos de grupo (mesmo os trabalhos manuais, com tintas e colas...) e raves no Messenger e no HI5 até às tantas– desde que tudo cá em casa (e comigo na sala ao lado). À conta disto (e dos índices de popularidade da minha filha, uma verdadeira pop star no micro universo escolar), tenho sempre a casa cheia de galinhas aos gritinhos e de mânfios silenciosos em plena adolescência. São todos iguais. Eles, de cabelo a tapar-lhes a cara, estilo barcarola, de olhos postos no chão e ar falsamente tímido, a darem-me dois respeitosos beijinhos como quem não parte um prato. Elas, giríssimas, de umbigos à mostra, cabelos compridos e dentes perfeitos. Perigosíssimas. Há dias em que a minha casa se enche de "tiaaaaaaaa", "ó tiaaaaaaaa", de hahaha, hohoho e de hihihi, e é vê-las passear entre o quarto e a casa de banho, de soutiã, a trocarem tops (camisolas sem alças), a pintarem-se as unhas e a lavarem o cabelo (estão sempre a lavar o cabelo!). O de dez anos, de olhos em bico, a achar que lhe saiu a sorte grande… E o que elas riem, senhores! Pode dizer-se que não sabem fazer outra coisa e que, se estudassem como riem, seria uma maravilha. Agora, tive cá uma emprestada uma semana inteira e garanto-vos que elas não pararam de rir por um segundo que fosse. E a lembrarem-me de que os 14 anos são isto mesmo: gozar, gozar, gozar - com os velhinhos e deficientes nos autocarros, com os professores, com o resto da família, umas com as outras e, especialmente, com os rapazes. São impressionantes, os níveis de inteligência emocional e de sagacidade (para não dizer de crueldade) das raparigas desta idade. Nada lhes escapa, disparam em todas as direcções, acertam invariavelmente na mouche e não fazem nenhuma espécie de cerimónia com o resto do mundo. É claro que, se me der para aprofundar, na maior parte das vezes, a diversão é mais delas do que minha.
Um dia destes, por exemplo, entro no templo feminino que é o quarto da minha filha e vejo uma espécie de soutiã de silicone pendurado. Mas que raio é isto??? Tiaaaaaaa, diz-me a M., é o soutien que comprei na loja chinesa (o prolongamento do "A" não é afectação, é mais a verbalização de um desejo de intimidade). A tiaaa já viu, não tenho mamas nenhumas, sou uma tábua, é uma tristeza. Eu queria era ser assim, como a tiaaa ou a Bia, com uma coisa que se visse. Então, comprei este soutiã de silicone nos chineses, cinco euros, depois, por cima, ponho dois daqueles soutiãs com almofada e só depois é que ponho o top. E fica assim (e mostra-me foto no HI5, sem vergonha nenhuma, elas todas de decote, abraçadas umas às outras, as maminhas e os risos equiparados. E eu, a olhar para aquele horrível acessório de borracha, sem saber o que dizer. Finalmente, saiu-me qualquer coisa parva como, Oh M., mas tu tem cuidado, querida, que essa borracha tem ar de se desfazer e, com o calor do teu corpo, pode ficar colada à tua pele. Elas riem-se e disfarçam o que pensam de mim porque, enfim, imagino que seja porque lhes dou de comer e lhes pago as pizzas que passam a vida a encomendar... Catorze anos, e já mestras na arte da dissimulação sexual despudorada. Ai a minha vida.
Cenas do próximo capítulo (sim, sei que vos deixei curiosos): o HI5, esse espelho interplanetário de egos adolescentes, onde muitos adultos, tristemente, também fazem uma perninha.
Sábado, Abril 21, 2007

Ó mãe… por favor! Então tu não vês que o desenho está ao contrário? Ele está é deitado de barriga para cima, que é assim que os gatos gostam de brincar:

Ah... Pois claro.
*7 anos
Domingo, Abril 08, 2007
WISHFULL THINKING
Joãozinho, é para ti! Obrigada, mãe!
Pega no telemóvel, corre para o quarto do irmão (que não estava) e fecha a porta, para garantir a privacidade da conversa. Do meu quarto (juro que não fui de propósito ouvir, juro!), pude perceber algumas coisas que ele dizia:
Olha lá a lata que eu tenho, já viste, I,. estou aqui deitado na cama do meu irmão, a falar, todo relaxado, tipo iá. Bué da fixe. Mas o que é que estavas a dizer?
Apercebo-me de que a I. lhe conta coisas que, entretanto, aconteceram no antigo colégio. E ele, às tantas:
E vocês lembram-se de mim? Falam em mim no recreio? Sim? Quantas vezes? Seis? Cem? Seis ou Cem? Não percebo nada do que dizes. Pronto, cem, ouço-te mal, mas acho que estás a dizer cem...
Moral da história: nunca é cedo demais para se fazer do wishfull thinking um modo de vida.
Sábado, Março 24, 2007
Primeiro veio Roswell, depois os x-files e os chips implantados na cabeça dos "levados", mas hoje existe algo muito mais poderoso e que derrete o cérebro dos adolescentes de toda a galáxia, dominando-os por completo: os leitores de mp3. Uns mini-coisos que se enfiam até ao ouvido interno, que os tornam escravos da música (ou, pelo menos, do que eles chamam música) e completamente autistas para o resto do mundo. Por exemplo, eu grito: “Beatriz! Beatriiiiiiiiz! Olha o tremor de terra! Abriga-te debaixo da viga mestra!” e ela ...nada. "Beatriiiiiz, tira os pés da água, olhó tsunami!"...nada. Qualquer tentativa de diálogo é recebida com a maior das indiferenças e o refrão trauteado do último lixo da MTV. O pior de tudo é nós, os outros, os não-adolescentes, termos igualmente que gramar com a alienação e o mau gosto musical, sob a forma de desperdício. E o que é o "desperdício"? O adolescente implanta os “phones” no ouvido interno no volume máximo, por forma a derreter o cérebro, e nós ficamos com os restos do som, uma espécie de “zzzzztpumhuuuuzpchchchchiiiiiiifssssss”, que não é música nem é batida, é apenas um ruído insuportável e irritante. E é claro que, quando vamos todos no carro, este barulho de fundo estraga a hipótese de qualquer outra sonoridade, portanto, rádio com música decente, esqueçam. Às vezes, dá vontade de bater repetidamente com a testa no volante. Beatriz, baixa isso... já baixei, mãe... baixa mais... assim não ouço, MÃE!...então desliga...Oh mãe.... Em dias especiais, quando me sinto especialmente preparada para a guerra (por exemplo, quando dormi bem ou depois de um fim-de-semana relaxado) resolvo dar luta: elevo o som do meu rádio, para não ouvir o desperdício dela; ela eleva o desperdício dela - carro, desperdício, carro, desperdício... DÁ-ME ESSA PORCARIA JÁ! (mãe, um, adolescente, zero).
Neste momento, tenho o pesadelo multiplicado por dois: um pré-adolescente e uma adolescente em descompensação hormonal. O primeiro, além do ruído de fundo vindo, não de Marte, mas dos guetos norte-americanos, ainda por cima, canta. E, coitadinho, meu rico filho, que dava a vida por ele, mas este meu filho do meio canta sempre na mesma nota e está sempre rouco. Parece uma retroescavadora lá muito ao fundo. Pior de tudo: como ambos estão quase sempre surdos, falam um com o outro e connosco a gritar, o que não contribui por aí além para a harmonia familiar. Para não os ouvir, olhem, comprei um Ipod. Daqueles cor-de-rosa, sabem? Lindo. Estou a adorar.
Sexta-feira, Janeiro 12, 2007
Pausa para considerações nationalgeográficas após o jantar:
Joãozinho: a alcateia de lobos para cá, a alcateia de lobos para lá...que comeram este, devoraram aquele, iadaiada...
(interrompe-o a maninha mais velha, muito matreira)
Mana matreira: Mas o que é uma alcateia, Joãozinho?
Joãozinho: Er...é assim uma espécie de manada de lobos.
(risota geral, que o menino é uma gracinha e gosta; depois, ouve-se o mano do meio, assimcomáassim menos matreiro mas que gosta de ver a criança espalhar-se ao comprido)
Mano menos matreiro: E um conjunto de peixes, João, como se chama?
(o outro, sem saber a resposta, mas inchado da gracinha, palhacinho nato, precisante da admiração dos outros como do ar que respira)
Joãozinho: Peixeirada!
Terça-feira, Outubro 17, 2006
Numa espécie de loja dos trezentos, a miudagem tenta convencer-me a comprar umas fisgas assustadoras que disparam balões de água. Eu, ainda com o último Carnaval na lembrança (guerras de balões de água em pleno Inverno entre uma turma de sétimo ano mais uma dúzia de apêndices menores, que deram direito a arrelias várias como roupas e camas encharcadas, constipações violentas e vários olhares justamente recriminatórios por parte das mãezinhas dos vândalos pré-adolescentes que haviam ficado a meu cuidado), dei-lhes um rotundo não. E vai a miúda: Oh mãe, mas tu quando eras da nossa idade não gostavas de balões de água? E vai eu, Gostava, mas isso era na vossa idade. Cada um no seu papel: o vosso papel de filhos é quererem que eu os compre; em nome da minha sanidade mental e da vossa boa saúde, o meu papel - de mãe - é não permitir que o façam Vai o mais pequeno, o pingento de seis anos (sem qualquer ponta de ironia), Oh mãe, eu pensava que o teu papel era TRABALHAR.
Olhem, sabem que mais, levem lá a porcaria dos balões e não se fala mais nisso. Prometam-me só que desta vez não encharcam o gato.
Sábado, Agosto 12, 2006
amor de irmãos
Tarde na praia, jogar ao stop (ou aos países, conforme a versão):
- Joãozinho, é a tua vez, diz lá o nome de um animal começado por dê.
- Deixa cá ver... Já sei! Diogo troglodita.
Sexta-feira, Julho 21, 2006

Uma semana na casa de praia da amiga. Cinco malas à porta do quarto.
- Filha, desculpa, mas para que é tanta coisa? Vais fugir de casa? Para o exílio? Vais-te mudar para a costa alentejana? Não precisas de metade desta tralha, francamente.
- Isso é que preciso, MÃE! É tudo im-por-tan-tís-simo.
- Ah. Ok. Portanto, deixa cá ver, estas maçãs todas são para quê? E os iogurtes líquidos? Vais para o meio do mato? É o kit de sobrevivência?
- Então, mãe, somos cinco, são três horas de expresso, se ALGUÉM tiver fome...
- E estes jogos todos, e o baralho de cartas, o monopólio?
- Já te disse que são três horas, ALGUÉM pode querer distrair-se...
- Vinte pares de cuecas para uma semana? Cinco sutiãs? Dez jogos para a playstation?
- E tens sorte em eu não levar a Shelby*! Olha, tens ali as instruções para a alimentares, não te esqueças.
- Pois, era giro, era, ires de aquário das tartarugas atrás. E para que é que levas esse cofre? Tens lá dentro algum tesouro?
- É onde guardo a chave do meu diário.
- Mas porque é que não juntas a chave, que é minúscula, ao teu porta-chaves? Tens que ir com esse mastronço atrás?
- Está bem, se calhar não é má ideia.
- E este saco, com coisas de vidro lá dentro?
- São vernizes.
(abro-o. contém todos os meus vernizes, roxos, encarnados, laranja, brancos)
- Olha, podias ao menos ter pedido. E para que é que queres isto tudo? Vais vendê-los para a praia, é?
- É que, assim, eu e a I. podemos querer pintar as unhas de acordo com a roupa, percebes?
- E estes cadernos?
- Um, é o meu livro de recortes de anedotas; os outros, são os meus diários.
- E para que é que levas essas botas para a praia?
- Pois...eu...
Meia-hora depois de duras negociações e a bagagem ficou reduzida a quatro sacos e meio, ou seja, levou à mesma o quinto, mas meio vazio. E lá foi, com o seu grupo (a seita tem um radar...), três rapazes e duas raparigas, com os seus vários pares de havaianas, os quilos de roupa interior, a maquiagem roubada à mãe, as três camisas de noite, as botas, o peluche favorito, as maçãs, a polaroid, o livro do Eragon e os ouvidos cheios de recomendações (tem o telemóvel sempre ligado, obedece à mãe da I., põe protector, não vás para fora de pé, cuidadinho com a rapaziada...), feliz e contente por me ver finalmente pelas costas.
E eu ali, no terminal das camionetas, a tremer o beiço, a vê-la, merda!, a afastar-se e a sentir que pronto, agora é que é, está a sair do ninho e eu não vou estar lá sempre, para lhe aperfeiçoar os voos, indicar-lhe as melhores rotas, amparar-lhe as quedas...
Um vazio estranho, que não é bem vazio porque também é uma coisa alegre e boa, de esperança e de olhos postos no futuro. Um vazio meio cheio, vá, como aquele quinto saco que ela levou consigo.
* a tartaruga, que, segundo as suas minuciosas instruções, só come se alimentada à boca, com uma pinça (yeah, right).
Terça-feira, Julho 18, 2006
Ora sai um kandinsky para a mesa do canto do infantário, fáxavor:
(ou da mobilidade dos conceitos teóricos)
- Mãe, fiz um desenho abstracto.
- Que giro, Joãozinho! E porque é que dizes que é abstracto?

- Porque não deixei nem um bocadinho de papel branco à vista!
Segunda-feira, Julho 10, 2006
- Mãe, este ano nas férias quero fazer trabalho assim tipo de caridade, sabes? Quero ajudar os velhinhos e os doentes, ou então tomar conta de crianças e ganhar dinheiro para comprar as minhas coisas. O que é que achas?
- Acho óptimo, Beatriz, há imensa gente sozinha que ficaria contente com um bocadinho de companhia, é uma excelente lembrança da tua parte. Agora, não me parece que seja o tipo de trabalho que se pague, é mais uma coisa que se faz de graça, para ajudar quem precisa, entendes?
- Sim, mas não faz mal, porque o importante é ajudar as pessoas...
(e, nesse momento, anjinhos de asa branca e pombinhas sorridentes carregando liras e raminhos de oliveira, inundaram o céu com os seus voos diáfanos de bondade e eu juraria até que ouvi as trombetas da paz ao longe...)
Uma semana depois, e aqueles jeans da bershka a chamarem-na, a mini-saia da roxy a berrar por ela e os Piratas das Caraíbas, parte II, a estrear.
- Olha, mãe, lembras-te daquela história do trabalho comunitário? Afinal mudei de ideias. Vou mas é dar massagens à família e aos amigos, que ganho mais.
E é este o cartaz que espetou à porta do quarto, sendo que, em vez das trombetas angelicais, ouve-se Shakira (consta que faz bem às cervicais, embora me custe a entender o enquadramento na categoria música relaxante):

Olhem, de boas intenções.
Domingo, Julho 09, 2006
- Ai...ai...aiiii!
- Joãozinho! O que é que estás a fazer aí no chão agarrado ao joelho?! Aleijaste-te?
- Não, mãe! Estamos a brincar ao mundial e eu sou o Ronaldo e estou a fingir que me lesionei.
...quanto mais a FIFA...
Sábado, Julho 08, 2006
A seu tempo, todos os posts anteriores voltarão também aos seus lugares.
Terça-feira, Junho 13, 2006
e pede à mãe para organizar uma pool party com os amigos (só os amigos, mãe! não quero cá família...). Chega o dia e a coisa está mais ou menos ela por ela: meia dúzia de rapazes espichados e borbulhentos, de gaforinas pseudo-rebeldes, vestidos à pinto calçudo, e meia dúzia de miúdas devidamente enformadas, de umbigos à mostra, costas à mostra (enfim, tudo muito à mostra, menos o couro cabeludo). Preocupação da mãe: contar cabeças - que ela bem sabe conterem nesta altura mais ideias parvas (como seja saltar do cimo da mesa de plástico para a piscina na parte mais baixa) do que outra coisa qualquer. A páginas tantas, o exterior esvazia-se para o quarto da filha, uma divisão de 3 metros por 3 com a janela fechada até cima numa escuridão completa, com tudo ao molho e fé em deus, ou seja, com tudo deitado em cima e aos pés da cama do anjinho e princesa de sua mãe. Afastadas as imagens súbitas de Sodoma e Gomorra (e de outros filmes de Fellini/Godard) que a assaltam, a mãe lá consegue penetrar no ambiente húmido de respiração e corpos encafuados para perceber que - alívio! - apesar do ambiente pesado, na televisão o Valdemort tenta matar o Harry Potter, o que lhe parece relativamente inofensivo. Uma hora depois, metade de sexo indiferenciado encontra-se novamente na piscina. Então, filha, os outros?, pergunta. Ah! Ficaram no quarto a ver o resto do filme. Quer dizer, alguns... porque os outros estão no marmelanço... A mãe congela o sorrisinho e jura não mais perguntar até ao fim da vida sobre o paradeiro de ninguém e, aquando no corredor, bate com força com os pés no soalho e anuncia a sua chegada com pompa e circunstância, gastando os nós dos dedos na porta do quarto. Afinal, há coisas que uma mãe não quer ver, nem saber, pelo menos para já.
Ele era um bocadinho de generation gap com tempero de espaço contentor aqui para a mesa do canto, fáxavor, que a minha filha acha que somos amigas e eu não sei se estou preparada.
Quarta-feira, Abril 19, 2006
“Mãe, sabias que o senhor incrível dá murros nos maus e faz poffff! E a mulher elástica estica muuuuuuito os braços, estiiiica e... iááááááááá!, também mata os maus. Depois há o Zezé, que não tem poderes e só se transforma num Diabo, e não faz nada, mas a Violeta atira uma bola contra os maus e vrrrrruuuuuuuummmm...mata-os a todos! O mais mau de todos é o Sindrome que lança uns raios assim, zzzzzzzzzt!, mas o Flecha corre muito, catapumcatapum, e ele nunca o apanha...”
(Duzentos quilómetros de onomatopeias depois, e varreu-se-me a tristeza miudinha de saber que vai passar a ver o mundo através de lentes inquebráveis. O que interessa é que veja o mundo.)
em viagem II
- Mãe, nós morremos para sempre ou vivemos outra vez?
- Não sei, filho, há quem diga uma coisa, outras pessoas dizem outra...olha, como nunca morri, se queres que te diga, não sei.
(silêncio prolongado. os carros lá fora. as travagens. as buzinas. as pessoas. a cidade a mexer. a dúvida a remexer.)
- Mas, mãe...quem é que gostavas que ganhasse?
(eu longe. em casa. no cinema. na revisão do carro. nas coisas por pagar. no jantar por fazer.)
- ...Que ganhasse o quê, filho?
- Sim, gostavas que ganhassem os que acham que se vive outra vez ou os que acham que morremos para sempre?
- Gostava que ganhassem os que acham que vivemos outra vez. Era bem mais giro.
(silêncio breve. brevíssimo. satisfeito. completo.)
- Pois. Era só viver...e viver...e viver...e viver....e toda a gente a viver...a viver... a viver... a viver...
(e lá fomos a viver e viver e viver até casa. felizes. a imaginar a eternidade do nosso amor.)
em viagem III
Adoro conduzir. Adoro. Existe, não obstante, um pequeno problema: todos os outros condutores, à excepção do meu marido e do meu pai (sim, sim, já sei: Freud explica). O convívio diário com o lixo que polui as estradas portuguesas é me difícil e desgastante, já que, cada falta de civismo irresponsável, tomo-a como uma espécie de ofensa pessoal, a mim e a toda a minha família até à terceira geração. E é então que eu, mulher habitualmente calma e ponderada, sou vítima de uma estranha mutação genética e, em menos de um minuto, passo de Dr. Jekill a Mr. Hide, adquirindo a imediata capacidade de desejar a morte, com dor, do meu semelhante.
Para tanto, basta algo tão inofensivo como o meu semelhante meter-se à minha frente a 20 na faixa da esquerda, marcar passo até ao sinal verde, que entretanto passa a laranja e, quando fica vermelho, zuuut!, acelerar e deixar-me parada no dito vermelho. Nos segundos que se seguem imagino-me com terríveis poderes telequinéticos tipo Carrie, a provocar o despiste do semelhante em questão e ficar a vê-lo agonizar entre os ferros retorcidos.
A frustração raivosa que então se apodera de mim tem várias consequências negativas que, infelizmente, não consigo evitar. A primeira, é que me tira anos de vida, uma vez que a raiva e o ódio, mesmo que durem apenas um nanagésimo de segundo, fazem mal à pele. A segunda é pior e traduz-se em conversas pedagógicas e edificantes, como a que se segue:
Eu: Ai o cabrão do velho que não me sai da frente e eu, que ainda não fiz o jantar!
Fedelho n.º 1: Mãe, estás a dizer uma asneira muito feia.
Fedelho n.º 2: Pois, mãe, se fossemos nós, se calhar, já tínhamos levado, mas como és tu...
Eu: Calem-se e não me chateiem. Já vos disse que, quando ouvirem a mãe dizer estas coisas no carro, não liguem, ignorem, esqueçam.
Fedelho n.º 3: A gente não liga mas ouve, temos ouvidos é para ouvir, e se tu podes dizer asneiras, porque é que a gente não pode?
Eu: Porque vocês são pequenos e...ai esta vaca que me ia batendo...pronto, porque não, porque eu digo que não podem e eu é que mando!
Fedelho n.º 3: "Porque não" não é resposta, foste tu que nos disseste.
Fedelho n.º 2: Além disso, não se chama "velho" às pessoas de idade, também nos ensinaste isso, lembras-te? Diz-se "velhinho", que é mais simpático.
Eu (em anotação mental): Prá próxima, não me posso esquecer de dizer o cabrão do velhinho.
Fedelho n.º 3: Ó mãe, e porque é que chamaste "vaca" àquela senhora, também é asneira?
Eu: Se não estiveres a referir-te àquele animal preto e branco que dá leite e muge, é.
Fedelho n.º 1: Mas o que é que quer dizer?
Fedelho n.º 2 (interrompendo-o): Ah, isso eu sei, é o mesmo que pê - ú - tê - á!
Eu: Não digas asneiras!
Fedelho n.º 2: Mas eu não disse, mãe! Eu só soletrei, olha: pê-u-tê-á, isso não é dizer a asneira...
Eu: Está bem, está bem, pronto. Vá, saiam lá que chegámos a casa. Dasse (em surdina).
Todos (em coro): Ó mãeeeee, mas isso também é asn...
Eu: PELAMORDEDEUS!
Domingo, Março 26, 2006
Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006
tão gira a neve!
Abro o congelador (o meu frigorífico é daqueles combinados, congelador mínimo em cima) e o que vejo? Três enormes bolas de neve (de gelo, portanto), cada uma, pertença de cada um dos meus filhos, com etiquetas de papel coladas ou lá o que é, nas quais, supostamente, constariam os respectivos nomes para não haver confusões (afinal, cada uma detém as suas especificidades e difere na essência e na forma, das outras duas, que isto das bolas de neve tem muito que se lhe diga).
Esta minha cabeça de mãe-dona-de-casa-trabalhadora-escrava-da-família-e-do-chefe-que-a-
azucrinam-diariamente, nem se dá ao trabalho de engendrar um qualquer plano maquiavélico como, sei lá, aproveitar sub-repticiamente as bolas para uns gins ou uns martinis, por exemplo. É para o lixo e é já, que se me começam a escorrer liquídos nojentos pela cozinha fora...
É claro que fui apanhada em flagrante delito enquanto me livrava da primeira bola, que descongelava no lava-loiça. De imediato, fui rodeada por três nativos selvagens que me manietaram psicologicamente e me impediram de alcançar os meus tenebrosos objectivos. Como resultado, o jantar foi assim uma espécie de bodas de Canaã, pois tivemos que cozinhar e comer uma data de coisas que descongelaram entretanto; já o resto da noite foi de guerra aberta, dado que cada um dos indígenas renegava a propriedade da bola entretanto derretida, pois a etiqueta (?!) desfeita com o suposto nome do proprietário não permitia identificar o mesmo.
O que significa que continuo com a capacidade do congelador reduzida a um terço, acrescida de lutas diárias pela posse da merda dos dois pedaços de gelo sujo, vindos da rua sabe-se lá de onde, que todos querem ter mas nenhum quer pegar.
(e eu, que ficara tão contentinha com a neve... totó, claro, para não variar)
Sexta-feira, Janeiro 27, 2006
E porque os bons conselhos nunca são de mais (e ainda por cima, são de graça), aqui vai mais um, este especialmente dedicado à malta casada, juntada ou amancebada, embarcada nessa conquista viking que é ter filhos pequenos. Então reza assim, o conselho.
Excepto em caso de doença, pesadelo, tristeza reconhecida notarialmente ou trovoada ribombante, não deixem os vossos rebentos dormirem convosco na cama. Caso não saibam, desde já vos informo que não é o facto de terem filhos em comum que faz de vocês um CASAL a sério perante os deuses, os homens ou entidades intermédias. Não. Precisam também e em especial, de:
porta do quarto fechada + reboliço entre os lençóis + gemidos abafados + risos atravessados + porta do quarto aberta + pésantepés corredor fora + assaltos ao frigorífico às quatro da manhã + líquidos bebidos pelo mesmo copo + dedinhos do outro lambidos com esmero.
Para que tal seja possível, ensinem o vosso filho, desde o momento em que lhe são apresentados, a gostar do seu próprio quarto e a confiar incondicionalmente naquelas quatro paredes. Se preciso for, fiquem lá com ele atéperder o medo ou a manha, deitem-se no chão ou onde for, mas não o deixem invadir um espaço que é vosso ( tal esforço é uma espécie de PPR com benefícios fiscais: acabará por ser recompensado). Caso contrário, preparem-se para um casamento incompleto, frustrado, cortado a meio e noves fora nada.
E pisguem-se sempre que puderem, mas só os dois, não sejam lorpas. Têm avós, tias, amigos, baby sitters, disponíveis para vos aturarem os rebentos durante três dias? Óptimo. Digam-lhes bye-bye sem olharem para trás, sequem a merda da lagrimita que teima em cair, desapertem o coração e façam-se a uma pousada, a um parador, a uma pensão, a uma noite ao relento. Só os dois. De preferência, dêem aos hóspedes do quarto ao lado um bom motivo para se queixarem ao gerente, no dia seguinte. Cheguem saciados, de mãos dadas, sorriso imbecil agrafado no rosto e prontos para pegarem plos cornos mais uns meses de procissão familiar e êxtases em surdina.
E nunca! por nunca, digam orgulhosamente cá eu, não vou para lado nenhum sem os meus filhos, se eu vou, eles vêm também. Desenganem-se: não é por causa disso que são melhores pais, nem que os outros vão achar que vocês são melhores pais. Aliás, são melhores pais, quanto mais felizes forem; para serem felizes, entre outras coisas, têm que se tocar com indecência, têm que se comer como perninhas assadas de frango caseiro e que se chupar um ao outro até ao ossinho; enfim, têm que se amar, pornograficamente, amar.
Por isso, caro/a leitor/a, atentai: se a sua cara-metade insistir para que viajem sempre todos juntos para todo o lado, atreladinhos uns aos outros que nem comboio de feira, desconfie e pense bem na vida. É muito provável que tal signifique que não quer estar a sós consigo, daí BigMacensanduichar os miúdos entre vocês. Eu cá, não sei. Eu cá...
Sexta-feira, Janeiro 13, 2006
iôoooo!
A morte bate à porta não sabes quem é
Ficas a pensar na festa que é
Vais à discoteca fazer uma kurte
Vais a casa Vais ao computador
Descobrir a parte do teu dispor.
- Ó João, aquela primeira parte não foram vocês que inventaram, confessa lá, aquilo veio de outra música qualquer...
- Não, não, mãe, essa parte foi o André que inventou, é mesmo inventada.
- Ah! Ok.
-...E a do "computador" foi porque me lembrei de ti...
- Pois, faz sentido (shame on me). E o "dispor", porquê esta palavra?
- Ora mãe, foi só para rimar.
(Portanto: sentido rítmico, boa expressão corporal, plágio parcial descarado, um toque de experiência pessoal baseado num trauma com a mãe, alguma preocupação com a rima... enfim, os rapazes têm futuro.)
Terça-feira, Janeiro 03, 2006
o insustentável peso do ser
- Então, Joãozinho, como é que te sentes, agora que já tens seis anos?
- Com mais responsabilidades.
Quinta-feira, Dezembro 22, 2005
Mãe a vários milhares de quilómetros de distância:
Olá, querido... estás bom? Tudo bem? Então, o que tens andado a fazer?
Filho de nove anos:
Está tudo bem, olha, agora estava a ver os Morangos com Açucar.
Mãe a vários milhares de quilómetros de distância:
Ah sim? E então, novidades? Aconteceu alguma coisa importante?
Filho de nove anos:
Por acaso, até aconteceu, sabes? Descobriram quem violou a Matilde.
(pausa para repeat e rewind no cérebro materno)
Mãe a vários milhares de quilómetros de distância, como quem não percebeu:
Quem fez o quê a quem?
Filho de nove anos:
Quem violou a Matilde, sabes? Afinal não foi o Nelson que agarrou nela e que...
Mãe a vários milhares de quilómetros de distância, atalhando num ápice:
Pronto, pronto, ok, não preciso de saber os pormenores, contas-me depois, agora adeus e porta-te bem! Olha, e já agora chama aí a tua avó, sim?
(para a próxima, envio um SMS e já não se me azeda o café viennois)
Quinta-feira, Dezembro 15, 2005
espaço contentor
O planeamento propriamente dito é sempre uma excitação: vamos para aqui, não!, vamos antes para acoli; esta cidade conhecemos, mas não vimos o não sei das quantas, ah! e com neve deve ser linda... e christmas markets, vamos a uma que tenha muitos christmas markets!, não preferes um sítio mais quente? tropical? não, vamos para a neve.. .. Enfim, atingido que seja o consenso, feitas as reservas e as malas de todos, lá deixamos os miúdos com os familiares respectivos. Em arrancando de manhã cedo, isto tem lugar no dia anterior. No momento das beijocas do adeus, já o estômago se me começa a enrolar tipo jibóia refastelada a digerir um gabiru. Adeus, meus queridos, portem-se bem, ó mãe, podemos ir com vocês, então, já falámos sobre isso, vocês gostam taaaanto de ficar com os avós, vá, adeus, adeus...! PUM!
Fecha-se a porta e o coração começa-se-me a mirrar como se o estivessem a embalar a vácuo. Nessa noite, como ainda estamos cá e eles ali ao lado, meia dúzia de ruas abaixo, a coisa escapa: acordo bem-disposta e cheia de energia, estado que se mantém no caminho para o aeroporto. balcão 27, check in, porta 13, embarque, não fumadores, coxia, fasten seat belts, pastilha elástica para os ouvidos e, no momento da descolagem, invade-me por fim uma angústia da separação tão grande, mas tãaaao grande, e uma vontade tão colossal de inverter a marcha daquela merda, afocinhar com o avião no chão e correr a resgatar os meus meninos das garras dos avós, que se torna mais agradável ir ao lado de um bombista suicida prestes a mergulhar de cabeça em setenta e duas virgens, do que ao meu.
Na primeira meia hora de voo, suspiro, fungo, arrependo-me, choro que me farto e gasto uma caixa de kleenexes; quando chega a comida, lá me distraio com o salmão fumado e as tristes vagens verdes que não como, procurando pelo meio qualquer coisa que saiba a chocolate. Chegadinhos que somos, pronto: é uma festa, os dias passam a voar, compro lembranças, escrevo postais, envio sms e mails e instala-se em mim uma saudade alegre e mansa; não raro, quando faço as malas no regresso, concluo que me soube a pouco e que, afinal, ainda me aguentava mais uns dois ou três diazinhos, na boa.
Nada a fazer: não obstante estar careca de saber como são e onde me levam, as minhas contradições de mãe seguem invariavelmente o mesmo padrão, ano após ano, filho após filho.
Quinta-feira, Dezembro 08, 2005
no carro (II)
Ele, o tal dez reis de gente com cinco anos: Mãe, vamos fazer um concurso de palavras acabadas em ão?
Eu: Vamos!
Ele: Cão!
Eu. Pão!
Ele. Coração!
Eu: Camião!
Ele: Mão!
Eu: Tostão!
Ele: Chão!
Eu: Perdão!
Ele: Cabrão!
(...)
End of Game.
Sábado, Dezembro 03, 2005
a árvore de natal
Começa tudo imbuído daquele espírito maravilhoso de sermos uma comunidadezinha fortificada pelo amor, pela alegria e por outras utopias que tais, e toca de enviar o entusiasmo inicial à garagem e mandá-lo trazer os pacotes todos para cima. A princípio, a malta ajuda e participa: pega daqui, escorrega dali, empurra dacolá, até ao elevador e, se preciso for, até ao infinito e mais além. Ao entrarmos em casa, já os bofes estão assim um bocadinho como que mais para fora do que para dentro, que a árvore é artificial e pesada, os enfeites são muitos, os anjinhos são de gesso, as bolas, de vidro, e os pais natal, de madeira.
Colo a cuspo as vontades, que começam a dispersar-se à primeira imagem dos morangos: vá lá, meninos, bora aí fazer isto, o que ajudar mais põe a estrela lá no cimo (estranhamente, esgatanham-se, por este privilégio final) e lá consigo arrastá-los para a montagem da coisa propriamente dita.
Ora bem, abrir as ramagens de uma árvore de natal de metro e setenta com a consistência de um abeto adulto dos apeninos, é tarefa, no mínimo, chata como a potassa: raminho a raminho, abre e puxa, abre e puxa, até ficar tudo redondinho e com o formato devido, que é parecer o mais natural possível. Por esta altura, quase sempre valores mais altos se levantam, normalmente, uns providenciais trabalhos de casa que haviam ficado esquecidos na bruma dos tempos. E lá me desaparecem eles para os respectivos quartos, fingindo semblante responsável. Quando acham que aqui a moira já abriu e puxou todos os fucking raminhos da puta da arvorezinha, aparecem alegremente na sala, de volta ao convívio natalício-familiar.
Então e agora, mãe? Agora é pôr as luzes, mas primeiro temos de as desenrolar.
E lá está: desenrolar as luzes (mal enroladas e à pressa no fim do Natal anterior) é uma graaaande maçada. As lâmpadas prendem-se umas nas outras, metade estão partidas e eu nunca me lembro de as ligar antes de as envolver na árvore; depois, quando constato que estão fundidas, tenho que as desenrolar, enquanto a minha língua desenrola em murmúrio (era bom, era) meia dúzia de asneiras, pouco condizentes com a quadra e com o momento, que se quer de alegria e paz.
Ultrapassado o pseudo-drama da iluminação, chega a altura dos enfeites. Aberta a caixinha das surpresas, três narizes mais ou menos curiosos (mais menos, do que mais, que o Zé Milho está a dar uma aula de hip hop), e começa finalmente a decoração a quatro.
Estranhamente, com tanta bola, estrela, anjinho e guirlanda, de todas as cores, tamanhos e feitios, cada um deles só quer o que os outros têm, dando-se então início à sinfonia do eu vi primeiro e dá cá isso, meu ganda troll. Os primeiros cinco minutos, são passados a disputar o direito à posse de uma bola encarnada (sendo que existem mais dez iguais); os outros cinco, o direito a uma estrela dourada (de que há mais seis) e por aí fora, até ao desmoronar completo da fraternidade natalícia e da minha paciência - que é o momento em que se escolhe qual deles porá a estrela branca (esta sim: única) no topo da árvore.
Por esta altura, já as minhas adoráveis crianças esgotaram o léxico de injúrias e ameaças aprendido no recreio da escola, acrescentaram mais umas de sua própria lavra, ensaiaram alguns tabefes e beliscões uns nos outros, e eu já os expulsei dali para fora. Com indisfarçável alívio, acabo por compor os finalmentes em agradável solidão.
Chamo-os, então (não tenho safa possível) para o momento da estrela branca: o vencedor é tirado à sorte, os outros dois, perdedores, fazem juras de ressentimento eterno e congeminam a aplicação de um ou dois cascudos no fanfarrão, na ausência dos adultos.
Nos dias seguintes, perguntados que são sobre a árvore de natal, prevalece unanimemente a versão oficial: foram eles que alancaram com a dita escada acima, foram eles que a montaram e eles que a enfeitaram. O pai, esse traidor, corrobora. Eu, basicamente, ter-me-ei limitado a supervisionar a operação. Ou nem isso: se formos a ver bem, nem lá estive. E eu não os desminto.
Todos os anos, por esta altura, a sensação de ser uma ganda-mega-major-mãe-totó-comida-por-todos-os-lados-menos-pelo-lado-que-liga-ao-continente, agrava-se.
Quarta-feira, Novembro 23, 2005
Conhecimentos que se fizeram àconta dos filhos, colegas de turma (gente com pouco ou nada em comum, portanto). Elas, ai! nós levamo-los sempre connosco, férias só com eles, já estivemos no México e em Cuba, yadayada, all inclusive, e eu, pois eu não, se me dou ao trabalho de atravessar o oceano é para me ir divertir, gosto de sair à noite, de comer àvontade, de beber, de dizer asneiras, de fazer disparates, quando estou com eles, lamento, gosto muito, mas não me divirto nem metade, e elas, chocadas, ai não, aiiii! Pois nós divertimo-nos taaaanto, tanto..., e eu a pensar, mentirosas, pá, mentirosas... e umas trancadinhas-extra, uma boa bebedeira, um charrito, já nem se lembram não é?...lá está. E olho para os pais-maridos, sentados na outra mesa, mulheres de um lado, homens do outro, barrigas caídas, duplas papadas, charuto ao canto da boca, o look secretário-de-estado-moda-verão-2005, a gabarem os filhos, a arrotarem-lhes as proezas, sempre os melhores alunos, the best!, a conquista da décima-melhor-cás-outras, mais um ano no quadro de honra e eu, a minha teve nega a Matemática, a professora é uma puta, e elas, chocadas, ai credo..., não diga isso!, e olham para o lado, e eles, os perfeitos, os paizinhos concebidos sem mácula nem pecado, os que os levam a todo o lado e gastam os dias entre as aulas de futebol (o meu é o melhor jogador), a natação ( a minha já está no campeonato), o judo ( o meu é cinturão roxo) e o violino ( eles foram tocar a Sevilha), e a repetição em coro do estafado summer hit, o meu é tãaaao inteligente, nem preciso de o mandar estudar, teve cincos a tudo!, e eu pensar como raio se cresce sem ouvir um vai para o quarto, tens que estudar, hoje não vês televisão!, a acenar a cabeça, a fingir que sim, e vocês, pázinhos, quem são vocês, no meio desse fogo de vista? em que momento deixaram de ser quem foram para passarem a viver a vida de terceiros, que, só por acaso, são os vossos filhos? eram assim tão vazias, as vossas vidas, antes de os terem? viva a perfeição da capa-de-revista!, sois todos tão bons, imagino-vos os podres (e bebo mais um copo sangria manhosa).
Segunda-feira, Novembro 21, 2005
numanumaiei
Olha! O Chicken Little a dançar a música dos gays mortos!
...
(é que não há politicamente correcto que salve esta família, gaita!)
Quinta-feira, Novembro 17, 2005
"xótes"
Mãe sentada à mesa, a ver os Morangos com Açucar: Beber um copo??? Mas qual copo??? Com a idade deles, espero bem que se estejam a referir a um copo de sumo...
Filha de 12 anos, que vê com a mãe os Morangos com Açucar: Ó mãe...dah!; é claro que é de sumo, querias que fosse o quê?
Filho de 5 anos, criança imberbe, pirralho de metro e pouco, que vê com elas os Morangos com Açucar:
Não é nada, eles já bebem mas é shots.
(assim, "xótes")
...
Segunda-feira, Novembro 14, 2005
mãe-mexilhão
E depois existe a questão dos gostos, que não há meio de se entrelaçarem (sim, eu sei, vai ser um corropio nos comentários de relacionamentos perfeitos mãe-filha, mas, olhem, não é o caso, azar). É que não há intersecção, ponto final, parágrafo. Dizem-me que é normal e que a generation gap em versão saudável é assim mesmo: elas a acharem giro o Zé Milho (aquele rapaz dos D´zert que me leva a semicerrar os olhos a cada vez que lhe entro no quarto e apanho com o dito em cheio na retina), e o George Clonney, um cota "medonho". Mas lá que irrita, irrita.
No outro dia, a grande fresta geracional tornou-se por demais evidente. O governo civil cá de casa autorizou uma pajama party (assim mesmo) de miúdas (faixa etária 12/13), com ordem de acampamento na sala e liberdade no Blockbuster. Às sete da tarde já estava tudo de pijama, a enfardar pipocas e batatas de pacote, assim contribuindo para o avanço inexorável do acne adolescente e do pneu, numa guincharia desalmada. O resto da família ficou confinado à zona dos quartos e qualquer aproximação a menos de cinco metros da porta, por parte de um dos irmãos mais novos, era recebida com manifestações histriónicas de repulsa tipo padre-de-cruz-em-riste-a-exorcizar-demónios.
O mais interessante? A escolha dos filmes. Sim, porque isto de eu ser mãe liberal é só fachada, na realidade, sou uma matrona castradora. Segue-se a inquirição. Então, que filmes alugaram? Ora, uns de terror...(resposta meio sumida). Sim, mas quais? O The Ring 2. Viram o um? Aquilo mete um medo desgraçado... Vimos. E não ficaram impressionadas, não morreram de medo, não tiveram pesadelos? Ai mãe, és mesmo dah!, como se aquilo metesse medo... Bom, ok, eu já vi o dois e aquilo é banhada, se aguentaram o um, podem ver o dois.
É claro que não viram, nem o dois nem o três. Cinco minutos depois da Samara (uma miúda molhada que sai dos televisores...brrrrrr) se ter mostrado no ecrã e de terem ecoado pelo prédio alguns gritos insanos, abafados por cobertores, e depois de todos os bonecos de peluche terem aterrado na sala à laia de consolo, lá passaram ao filme seguinte. E qual era o filme seguinte, perguntam-me vocês? Qual? Pois com tanta filme para adolescente no mercado (99,9%, praticamente), as miúdas escolhem-me o ...Kiss Me.
O Kiss Me! Eu nem estava bem a ver o que era aquilo, pensei que fosse uma história de amor para teenagers; afinal, era um filme português com a Marisa Cruz pré-Pinto, o inefável Nicolau Breyner e mais uma dúzia de estrelas nacionais incandescentes, numa mediocridade soporífera que metia dó. E eu, estupefacta, a ver a marisa roçagar pelos lençóis as suas qualidades dramáticas, Mas ca raio vos passou pela cabeça para alugarem uma coisa destas ??? Afinal, parece que uma delas tinha uma prima que tinha uma amiga que tinha outra amiga cuja irmã lhe tinha dito que o filme era giro.
Concluo que, no microcosmos adolescente, como no macrocosmos da vida, a credibilidade das fontes e o normal funcionamento dos canais de informação, nem sempre culminam numa boa estória.
Domingo, Novembro 06, 2005
Mães de pré-adolescentes ,*aqui vai um conselho grátis sobre como evitar rombos irreversíveis no orçamento doméstico.
Nunca, mas nunca!, façam o chamado avio mensal, que é como quem diz, nunca encham o frigorífico após uma corrida ao hipermercado. Mais vale irem à mercearia da esquina e trazerem víveres aos poucochinhos, como quem usa senhas de racionamento, porque tudo o que eles encontrem lá dentro, eles comem. Se comprarem seis danoninhos, eles comem seis danoninhos, se comprarem doze, eles comem doze (e no mesmo espaço de tempo). Manteiga, convém que haja pouca, para que não barrem um papo-seco com meio pacote; donuts, nunca em caixas de seis, que voam tão depressa como as de dois (ou mais depressa, tal é o mochepara ver quem os come primeiro ). Nunca comprar um queijo Limiano inteiro, pois, neste caso, as fatias enfiadas no pão ou devoradas a seco (é o mais certo!), assumirão uma grossura pornográfica; é comprar um quarto e embrulhá-lho em camadas sobrepostas de película transparente, para dificultar o acesso. Fiambre da perna, então, nem vê-lo: uma embalagem de fatias fininhas e nem as sentem passar-lhes pelo estreito, deglutidas que são, de imediato, pelo primeiro que lá chegar. Chocolate em pó para o leite, é às caixas pequenas, de preferência onde não caibam colheres de sopa. Fritar só uma caixa de douradinhos a cada refeição porque, por mais que frite, não há quantidade que os vede, sobrando sempre lugar para mais meia dúzia, naqueles estômagos vorazes. O melhor é comprarem mesmo só uma caixa de dez, sejam fortes, resistam às caixas de vinte cinco mais um. Evitem iogurtes líquidos e sumos Compal, que eles sorvem como quem bebe um copo de água e com a mesma intenção: a de matar a sede (que nem sequer aquietam, como estábem de ver).
Mães, coragem, sejam forretas! Se não podem coser a boca aos vossos filhos, então, que lhes transformem o interior do frigorífico numa tundra fria e deserta e num desconsolo para a vista: ao fim de algum tempo, garanto-vos, eles estão a implorar-vos por fruta e sopa.
* adenda: também se aplica a adolescentes tout court. E a alguns maridos.
Quinta-feira, Outubro 27, 2005
Como me apetecesse dizer mal, cortar na casaca, ser um bocadinho puta, enfim, telefonei a uma amiga. A custo, pediu-me que a desculpasse mas não poderia brincar comigo, pois tinha o filho pequeno bastante doente. Tipo castor hiperactivo, o arrependimento roeu-me os fígados e com eles construiu rapidamente uma represa. Quão estranho lhe deve ter parecido o meu palavreado solto!, assim como quem vê um estendal de roupa ao longe e ao vento, sem forma nem nexo...
Porque, quando nos adoece um filho, suspende-se-nos a rotação do sol e da terra e tudo pára, como a bobina de um filme que se parte, a frame imobilizada no ecrã , com o galãparado, a caminho dos lábios para sempre entreabertos da sua amada.
No fundo, no fundo, sabemos que, láfora, as pessoas continuam a ir para os empregos, picam o ponto, discutem política nos cafés e pedem o prato do dia, mas são rituais que nos surgem distantes, improváveis, quase absurdos. O que resta da nossa existência, para além do filho-que-está-doente-e-tem-que-ficar-bom, passa a ser gerido em piloto automático, porque nós, na verdade, não estamos lá, abandonámos temporariamente o cockpit das coisas banais.
E os outros, quantas vezes sem perceberem que o ser humano que têm à frente não é mais do que um clone nosso, um fantoche que se faz passar por nós e que manda bitaites em reuniões importantes, confere o troco na caixa do supermercado e diz boa noite aos vizinhos, no elevador.
O medo que nos toma de assalto o estômago minimiza tudo o resto, desde dívidas por pagar a ofensas por vingar. Trepa-nos em espiral, como alguém que sobe a correr as escadas de um farol, e empurra-nos para cenários de horror terminal, confabulados a partir de uma constipação de merda.
A um filho doente, seguimo-lhe religiosamente as funções vitais: se não come, perdemos o apetite; se não dorme, forçamo-nos à vigília; se não lhe apetece brincar, não nos apetece ouvir música, ver um filme, fazer amor. Se nos desvia o olhar mortiço da história que à noite lhe lemos, nós, nem nos atrevemos a olhar para os títulos do jornal do dia.
Sacerdotisas dotadas, adivinhamos nas entranhas da fisionomia dele os mais pequenos sinais de recobro ou do contrário, e sabemos ser o silêncio o pior desses sinais. É então que queremos tanto!, voltar a estar fartos do barulho do rodado do triciclo no soalho, das birras ao fim da tarde e da avalanche de perguntas irrespondíveis, que nos abalançamos a qualquer coisa que rompa a insuportável quietude do nosso filho doente.
E o tempo lá fora, suspenso, o relógio da nossa vida parado, àespera de corda. Na imensa e feliz maioria das vezes, tudo acaba sem deixar outras mossas que não as que se vão sobrepondo, em camadas de mil-folhas, no nosso arrítmico coração de pais e mães.
Mas só ao primeiro sinal de melhoras irreversíveis os vários lados da nossa vida desconchavada começam de novo a encaixar-se. É apenas então que, quais houdinis aliviados, nos libertamos das correntes que nos puxavam para o fundo e vimos à tona, expirando longamente as angústias monoxido-carbónicas-acumuladas. E a terra recomeça, lentamente, a girar.
Domingo, Outubro 09, 2005
a precoce consciência das limitações
Miúdo de 9 anos amigo do meu filho: o Diogo gosta da Mariana R.!
Diogo: e tu gostas da Marta L.!
Eu: Ah sim? E é gira, a Marta L.?
Miúdo de 9 anos amigo do meu filho: É muita gira.
Diogo: Nem por isso. Por acaso, não é assim muuuuuita gira...
Eu: Ai não? Então em que é que ficamos: é ou não é gira?
Miúdo de 9 anos amigo do meu filho: Bem... é... mais ou menos. Giras, giras, são as de 18 anos, mas com essas não tenho hipóteses.
Domingo, Setembro 25, 2005
a melhor amiga
Nestas idades pré-adolescentes, uma melhor amiga é muito mais do que um namorado ou uma irmã: é a alma gémea, é aquela presença constante, é tudo. Vivemos em estado de paixão pela melhor amiga, o que nos leva a ter ciúmes das atenções que dispensa a terceiros, principalmente às outras amigas - que não são as melhores, mas também são boas amigas.
A melhor amiga, não a queremos partilhar com ninguém e estamos atentas à menor manifestação de desatenção e descuido por parte dela, que não toleramos. É a nossa primeira manifestação de vontade de posse absoluta (fora do seio familiar), este desejo de guardarmos a melhor amiga no bolso.
Quando eu era miúda (e a minha melhor amiga, também), a gestão das confidências e dos desentendimentos era feita através de cartas, bilhetes e , às vezes, de telefonemas curtos; hoje, elas trocam-se acusações por email e pedidos de perdão no MSN; de resto, os afectos são os mesmos.
Podemos ter muitas outras amigas ao longo da vida - e mais do que uma melhor amiga-, mas, seja no singular ou no plural, anos depois, ainda sorrimos com carinho, à lembrança daquelas intimidades e risinhos partilhados numa cama para um, e das conversas sussurradas sobre o sabor e a forma dos primeiros beijos. E temos músicas, que associamos para sempre às cumplicidades vividas meio em segredo.
Às vezes, as melhores amigas são-no pela vida fora; outras, deixam de o ser num segundo, naquele segundo em que o nosso universo se desfaz numa espécie de poeira atómica e nós temos a certeza de que não mais conseguiremos ser felizes. Zangarmo-nos com a melhor amiga é a primeira verdadeira sensação de perda, a primeira cicatriz.
Na maior parte dos casos, afastamo-nos da melhor amiga aos poucos e sem bem sabermos porquê; um dia, os segredos passam a ser partilhados com outros e as camas para um, também. Na pior das hipóteses, a melhor amiga transforma-se numa maçada anual à mesa de um café ou de um restaurante e, então, só nos resta recordar, com um sorriso nostálgico, a amiga de outros tempos e deitar fora o seu número de telemóvel.
No fundo, a nossa melhor amiga é o nosso primeiro amor. Melhor: cada melhor amiga, é sempre um primeiro amor.
Sexta-feira, Setembro 23, 2005
mudam-se os tempos, mudam-se os conceitos
(ou...ver a vida através dos olhos da PS2)
Diogo em frente ao televisor, a ver os Piratas das Caraíbas:
- Este filme tem gandas gráficos.
Segunda-feira, Setembro 19, 2005
estratificação social
- Mãe, a partir de hoje sou dread.
- Ah sim? E o que é isso de ser dread?
- É não ser betinho.
- E o que é que é ser betinho?
- É não ser dread.
- Olha filho, tens de te esforçar mais um bocadinho para me explicares essa coisa na orelha, que assim não vamos lá. É que esses adereços parecem-me assim um bocadinho...bem, de menina.
- Mãe, meninas são os betinhos, os dreads são muito homens.
(pausa. inspira. expira)
- Então, usar brinquinho e colar é de homem, é isso?
- É.
- Pronto, está bem. Mas os betinhos e os dreads são diferentes uns dos outros, porquê?
- Então, os dreads falam de miúdas e de desportos radicais.
- Ah. Ok. E os betos?
- Os betos...bem, também falam de miúdas...
(pausa número dois)
- ... mas falam mesmo, mesmo é de roupas de marca.
Domingo, Setembro 18, 2005
A primeira vez que largamos um filho no infantário, invade-nos a vontade de desatarmos a correr àprocura da figueira mais próxima, para nos enforcarmos, tal a culpa que nos assola. A desgraça costuma evoluir da seguinte forma: no primeiro dia, com a imaginação atiçada pelo esforço conjunto da família, os putos vão na expectativa de um lugar celestial, com brinquedos e meninos, para brincar e bater à discrição.
Chegam de coração aos pulos e são recebidos pelos sorrisos abertos de educadoras e auxiliares. Só que o colo daquela que-vai-ser-só-deles-enquanto-a-mãe-vai-trabalhar dura apenas 0, 0001 nanogésimo de segundo, rapidamente oferecido a um outro miúdo (que cedo constata a mesma coisa). É então que começam a torcer o nariz, mas que merda é esta, pá, quem são estes gajos todos iguais a mim ao colo da Isabel (elas chamam-se sempre isabéis, marias joões, cristinas ou sãos) ? Encorajado, porém, com o falso sorriso de confiança que a mãe e o pai lhe dirigem, lá vai ele, portão dentro, adeus, querido, porta-te bem, a mãe vem cedo, logo a seguir ao lanche... No primeiro dia quase todos (como não sabem bem, bem, o que os espera) ainda viram as caritas para trás e esboçam arremedos de sorrisos. Nos seguintes, porém, desenrola-se no seio familiar uma verdadeira tragédia grega, em vários actos e sem catarse à vista.
Conforme os feitios e as disposições, as criancinhas são levadas (algumas, literalmente, arrastadas) em lágrimas, aos gritos, aos soluços, num choque mudo ou (a pior hipótese, garanto-vos) num esforço brutal para não chorarem e não decepcionarem os pais, repetindo entredentes para si próprias: eu não vou chorar, eu não vou chorar... enfim, um tormento diário de olhos inchados, bibes ranhosos e pais desorientados, despojados de qualquer réstea de dignidade, a quebrarem as regras mais básicas de qualquer manual de psicologia infantil. Pais que não aguentam e invadem as salas, resgatando das garras das malvadas educadoras os filhos aprisionados, pais que compram um sorriso aos filhos com pernas de pau e pastilhas elásticas às nove da manhã, mães que aguardam horas dentro dos carros, mãos cravadas no volante, até uma alma caridosa vir cá fora garantir-lhes, jureumorrajáqui!, que o respectivo rebento estácalmo, arriscando processos disciplinares nos locais de trabalho, pode ir, mãe, pode ir que ele está bem...; mães que se reúnem no café ao lado exibindo, como troféus, os sorrisos arrancados na despedida, ele hoje já não chorou, só soluçou um bocadinho, pois a minha, até me disse adeus e sorriu para mim, só que vomitou logo a seguir... Bandos de galinhas infelizes que cacarejam as angústias pela manhã fora, em frente a bicas frias que não beberam (eu! eu!) e que, à tarde (depois de um dia em que não viveram e se limitaram a vegetar e a arrastarem-se pelas horas) desesperam de angústia se o trânsito as impede de estar lá às quatro em ponto, ai se o Filipe sai primeiro, o meu fica a pensar que já não o vou buscar, ai e se a educadora se vai embora e o metem da sala do lado, ai que está quase noite e ele ali... ai, ai, AI!.
Felizmente, alguns dias ou semanas depois, os miúdos resignam-se e muitos acabam, mesmo, por gostar, destarte alguns recuos e sossobros pelo meio. Mas lá que doem como o caraças, aqueles primeiros dias, que nós (e eles) nunca mais esquecemos, isso doem. Por isso, vai daqui uma ganda beijoca de solidariedade para com todas as mães e pais que, no presente ano lectivo, passam (ou já passaram, ufa!) por esta puta desta agonia.
Quarta-feira, Setembro 14, 2005
no restaurante chinês
- Então, Diogo, estás com vontade de voltar à escola?
- Estou!
- Tens saudades dos teus amigos? Da Mariana R. ?
(o apelido, essencial para o reconhecimento no micro cosmos social que é a primária, foi aqui omitido, por respeito ao bom nome da visada)
- Tenho.
(princípios de riso)
- Estás com saudades de namorar com ela?
- Oh mãe!... hoje em dia não se namora, anda-se.
- Ah. Pois. Claro. Anda-se.
(pausa)
- Olha uma coisa, e lá no colégio, onde é que tu e a Mariana nam...digo, andam? O que é que fazem?
- Nâo fazemos nada em lado nenhum que as contínuas não deixam, estão sempre atrás de nós.
- Nem um beijinho?
(risos, muitos risos)
- Nada, nem um! Nem sequer podemos dar as mãos.
- A sério?! Não acredito!
- Juro, não podemos. Quer dizer, só podemos durante os passeios de estudo, em que vamos aos pares.
- Ah, bom! Ao menos isso...
- Mas eu sou um desgraçado, mãe, não tenho sorte nenhuma: calham-me sempre as feias.
Sábado, Setembro 10, 2005
no carro
Mãe e pai, rendidos a uma pianada clássica (Beethoven no seu melhor). Putos a secar. Às tantas, o Joãozinho:
- Ó Pai, põe aí uma música com mais guitarra, assim tipo tenenéu (gesto à Jimmy Hendrix), uma coisa mais rocker rolo...
Faço-me à praia, na urgência de esfoliar esta invernia que se me mantém colada à pele. Assim que a vislumbro ao longe inspiro fundo, para que o cheiro a iodo e algas me atinja o córtex, mas é então que me lembro de que estou no Algarve, suave Algarve, e não nas praias do Oeste que me correm nas veias, essas línguas de areia grossa (batidas por um mar intratável, amante de mau feitio), propriedade dos pulgões e das gaivotas, com escritura assinada no tempo dos dinossauros.
Célebres celebridades que ninguém celebra cruzam-se comigo ao longo do enorme passadiço em madeira que rasga a reserva natural, a caminho da barraca de praia mais in de Portugal, dispostas a pagarem cem euros por um robalo que o espertalhão do dono finge ter pescado com as próprias mãos.
Por entre os toplesses das estrangeiras e as guedelhas dos betos, miúdas de cor guardam crianças brancas, de seis meses, um, dois, cinco anos. Envergam batas de riscas abotoadas até ao pescoço, que asseguram aos outros que elas não estão ali para se divertirem e que não se atreverão a roubar um raiozinho, sequer, de sol.
Contemplo aquele quadro e algo lhe falta, como um fresco de Boticelli despojado de mulheres ruivas ou um óleo de Rubens sem matronas opulentas. Subitamente, como uma brisa fria que passasse, faz-se-me luz: falta ali humanidade, calor, bem-querença; não há tocar, nem acarinhar, nem afagar, apenas uma mão-trela que agarra as crianças e as impede de se afogarem, de engolirem areia ou de se queimarem com o sol.
Por sobre as pequenas cabeças louras que têm à sua guarda, as miúdas negras olham com apatia o cargueiro que passa ao longe, na linha do horizonte, como se este fosse atracar na praia e entregar-lhes em mão uma vida nova, trazida em contentor selado. Sonham com coisas, parece-me: um encontro prometido, talvez, uns ténis que viram numa montra; as crianças louras, essas, aceitam com indiferença, a indiferença de quem lhes dá a mão e, num sábado à tarde, momento do suposto reencontro dos afectos em família, brincam sozinhas, guardando as palavras e os olhares para si próprios.
E eu, que nunca fui mãe-perfeita, nem mãe-paciência, nem mãe-só-mãe;que tantas vezes, confesso, tantas vezes!, me disse que gostava de ter uma daquelas só para mim, sópara eles, são tão meigas com as crianças e tão pacientes, as pretas, as mãe-pretas;
eu, que gostava de voltar a pular numa discoteca, de poder gritar quando faço amor, de voltar a beber atécair e de ir a correr e, depois, mergulhar onda dentro sem cuidar de quem me seguisse, e de ficar a boiar e ser arrastada pela corrente como uma alforreca morta, e de poder adormecer na toalha molhada, uma bochecha com as marcas do turco e a outra escaldada pelo sol, e de não estar sempre vigilante, põe o chapéu, olha a onda, anda cá, não me atires areia, ai! alguém que mos leve;
eu,
ali, naquela praia, sinto que nos saiu o jackpot na máquina da vida, tlim, tlim, tlim, a mim e a eles, tlim, tlim, tilim, e que as moedas não param de cair, tlim, tlim, tlim, e que somos uns sortudos, nós, ali, a rebolarmo-nos na areia molhada e a oferecermo-nos prémios ao melhor croquete humano, num sábado à tarde de um dia de quase, quase Verão.
Terça-feira, Agosto 30, 2005
Atormentada por uma consciência fransciscana que de quando em vez me morde as canelas citadinas, cedo sempre aos desejos de bicharada em casa (exceptuando insectos). Por isso, e depois dos costumeiros vá láaaa, não, sim, ohmãeee, não etc. e tal que isto já enjoa, lá entrámos na maravilhosa fase tartaruga.E é agora, com a transição para os habitats aquáticos, que a coisa se começa a complicar (água = bedunguice húmida = cheiro pestilento).Ainda por cima, os espertalhaços dos vendedores de hoje, sob a capa da mariquice politicamente correcta, impingem toda a espécie de luxos inúteis para os animaizinhos, tipo vitaminas-para-a-tartaruga-aguentar-a-hibernação, sais-minerais-para-aniquilar-o-cloro, filtro-a-motor-para-oxigenar-a-água e saibro-fervido-para-o-fundo-do-aquário. Sim: aquário! Porque hoje já não há cá aquela coisa das ilhotas de plástico com as palmeiritas verdes no meio, como no nosso tempo. Quer dizer, haver, há, mas eles descrevem-nas como sendo uma espécie de alcatraz para as tartarugas, taditas, que nem se podem mexer, nem nadar nem nada... e não há quem as compre.Como tudo acabou? Eu conto. Depois de uma hora com três crianças histéricas numa mini-loja para animais onde, se me virasse para um lado, pisava uma cacatua e se me virasse para o outro, esborrachava um coelho-anão, lá saímos com dois aquários próprios, quatro tartarugas e uma catrefada de sais minerais e vitaminas de fazer inveja a qualquer campanha de saúde da ONU em África. A escolha dos bichos não se mostrou fácil, afinal, as tartarugas são todas muuuuuuito diferentes umas das outras (como todos sabemos) mas, após quinze minutos de cócoras e quatro decisões sofridas, a escolha do nome revelou-se estranhamente fácil. A verdade é que, enquanto existirem pokémons (já são mais de quinhentos), nomes para animais nunca serão um problema...Agora, levantam-se-me desafios vários, a saber.Já consegui convencer a minha filha de que não é preciso dar-lhes aqueles camarõezinhos mal-cheirosos à boca com uma pinça, que as gajas sabem comer sozinhas (são parvas mas não tanto). A próxima etapa é convencê-los aos três de que a snorlax, a charmander e a mais-não-sei-quantas não precisam de comer duas vezes por dia, todos os dias (afinal, o raio dos bichos passam meses hibernados e em regime de manutenção mínima, porra!). Por último, tenho de lhes fazer ver (ai! cansaço...) que aquele cheirinho bom que agora exala do quarto deles, não é das cuecas nem das meias sujas que se amontoam ao canto da cama, mas sim do interior dos lindos e grandes aquários que teimaram em comprar e que levam litradas de água que mais parecem uns auto-tanques (e que são eles que têm de os lavar, como me prometeram e juraram) embora não apeteça nada porque naquele exacto momento está a começar mais um episódio dos morangos. Pois. Está-se mesmo a ver. É que é já a seguir.
(ganda totó. major totó, é o que eu sou. major).

adenda: o aquário-reptilário (porque uns t-rexes de plástico dão sempre arranjo numa casa e assim já podemos brincar ao onde está a tartaruga-wally?)
E lá estava eu, à porta de uma coisa chamada Klube, em Vilamoura, sujeita ao escrutíniopouco amistoso de um porteiro bronco, como uma perigosa ré armada em boazinha para sacar a precária, e a conseguir entrar graças ao assomo de magnanimidade da criatura, obviamente situada na base da cadeia alimentar.
Era a retumbante noite rastafari - mas na variante "noite dos bisnetos do Bob Marley ", pois que, até onde a minha vista de cota alcançava, aquilo era só crianças entre os catorze e os dezoito anos.
Com um gin tónico aguado no bucho, a sentir-me uma autêntica penetra e em risco sério de tédio mortal, dediquei-me ao estudo do comportamento social e da linguagem corporal dos muito jovensde hoje em dia. Concluí uma coisa: que eles não se sabem divertir (aqueles, pelo menos, não sabiam). Não sei se é do medo da Sida, se da erosão da heterossexualidade como comportamento dominante, se da ditadura do politicamente correcto, mas já não se engata como antigamente - o que não deixa de ser estranho atendendo a que, tanto elas como eles, são muito mais giros do que nós éramos (mais altos, mais magros, com menos acne e, decididamente, mais bem vestidos).
Verdade se diga que, em contraste com a beleza saudável e ginasticada que quase todos exibem, nota-se-lhes uma falta de vivacidade e de sensualidade que até assusta. Ele é rapazitos aos molhinhos de três e quatro, de ar mole e envergonhado, copo na mão, sem se darem ao trabalho de olhar com atenção as miúdas à sua volta e muito menos de, por exemplo, discutirem entre si a cubicagem das maminhas e dos rabos (o que não me parece nada normal); e ele é elas noutros molhinhos, diferentes e isolados, concentradas no reggae debitado por um trio que mais parecia de arrumadores subnutridos, a chuparem coca-cola e ignorando-os olimpicamente enquanto discutem o último colar comprado na feira. Estranho. Ah! E quase ninguém dança, vê-se que têm vergonha.Em resumo, falta galanço a esta miudagem, falta galanço, medem-se pouco, muito pouco e eu não entendo onde se esconde tanta hormona que, supostamente, deveria andar por ali aos pulos que nem pulgas em pelo de cão de água.
Então lembro-me de que tenho uma filha a caminho dos treze, e, subitamente, a aparente falta de líbido desta nova geração já não me parece assim tão má, que deus a mantenha e guarde, a estes santinhos.
Cerca da duas da manhã chega nova revoada de infantes, até parece que tocou para o recreio, e eu a rir desbragadamente com aquilo tudo, a ser observada e dissecada pelas miúdas à minha volta, como uma alien caída em Roswell.
Às tantas, a música muda para r&b, o meu marido agarra-me pela cintura e começamos a dançar a par. Bom. Sabem aquela cena do Madagáscar em que os animais são apanhados pela polícia na Central Station? Pois. Pouco faltou para que ligassem holofotes a apontar para nós, as sirenes começassem a tocar, os seguranças e o corpo de intervenção da PSP acorressem ao local, e se formasse um círculo de miúdos aterrorizados à nossa volta, de dedos apontados para as nossas pessoas aos gritos de ESTÃO AQUI! PAIS! PAIS! PAIS!
Felizmente, conseguimos fugir sem ser apanhados e fomos ao pão quente. Ufa. Quem disse que a generation gap não é uma coisa boa e desejável? Tá bem tá.
Quinta-feira, Agosto 25, 2005
regresso
take um
- Então, Joãozinho, portaste-te bem em casa dos avós?
- Às vezes sim, outras vezes não. Hoje, por exemplo, à hora do almoço, o avô ralhou porque eu tirei um bocado de atum da travessa e ainda não estávamos todos sentados à mesa.
- Pois, devias ter esperado.
- Mas é que eu estava a morrer de fome...
(pausa)
- Bem... a morrer a morrer de fome não estava, é só uma expressão de dizer, percebes?
take dois
- Olha, ontem na praia escorreguei numa rocha e fiquei a deitar sangue do joelho.
- Coitadinho! E estás melhor?
- Já estou bom, não tenho nada... as plaquetas trataram do assunto.
Segunda-feira, Agosto 15, 2005
Onde estão? Quando começam as AULAS??? Só daqui a um MÊS??? (glup)
Eu juro
que nunca mais digo mal da professora de História
que nunca mais me queixo do preço dos cacifos
que nunca mais me esqueço de pagar o judo
que nunca mais reclamo das festinhas de fim de ano
que nunca mais me esqueço das reuniões de pais
que nunca mais me irrito com o porteiro (nem com o senhor da carrinha, aquele santo)
que nunca mais chateio a directora
que nunca mais digo que a comida do refeitório sabe a ração...
...mas que comecem as AULAS!!!!
Quinta-feira, Agosto 04, 2005
(ou sou completamente comida e gosto)
- Mãe, compra-me um gelado.
- Não compro, porque tu depois não gostas ou fartas-te, como de costume, e depois deitas fora e estragas.
- Vá lá...
- Já disse que não.
- Pensava que eras uma mãe muito querida mas, afinal...
- Que sabores é que queres?
Sexta-feira, Julho 29, 2005
“Dá-me isso, que é meu! não é nada, estava no chão do meu quarto, por isso é meu! és um troll, quando te apanhar a jeito vais ver! ai é ? então devolve-me a caderneta que te emprestei! não devolvo nada, se quiseres tenta tirar-ma, vais ver...mongo! e tu és uma baleia badocha e agora vou dizer à mãe quem é o teu namorado, ai vou! ai vou! atreve-te, anormal, nem sabes o que eu te faço! aiiiiii, mãeeeee, ela está-me a bater! e tu deste-me um pontapé no cotovelo, olha mãe, olha aqui a marca!..”
...
Estou convencida de que, se em vez dos paralelos de calçada que são o Bush e o Sharon, pusessem uma mãe de dois, três ou mais - uma qualquer, dessas que há para aí aos milhares pelo mundo - a tentar resolver, por exemplo, o conflito no médio oriente, já a terrinha santa se encontraria toda divididinha, as fronteiras bem demarcadinhas e cada um no seu canto, a viver contentinho e em paz.
o CD de O Rei Leão, eu ponho e ele começa a cantar e a saltar, todo contente, em cima do sofá. É um ciclo sem fiiiiiiiim que nos guiaráaaaa, hakuna matataaaa e por aí fora. Deixo-o a dançar e vou à cozinha. Quando volto, ouço uma música
instrumental triste e vejo-o deitado no sofá, de barriga para baixo, imóvel e de olhos fechados. Volto a sair, entro passado um bocadinho e ele continua lá, sem se mexer. E eu, Então, Joãozinho, não danças mais, estás cansado? E ele, Agora tenho de estar assim porque esta é aquela música que dá quando o pai do Simba morre, sabes?
Ah, ok.
Quarta-feira, Julho 27, 2005
- Mãe, preferias morrer ou viver com problemas?
(inspira, expira, responde)
- Ora João, que raio de pergunta! Viver com problemas claro, porque quando a gente morre, olha, acabou-se tudo para sempre, as coisas boas e as más.
(pronto, agora mudemos de assunto e sigamos pra bingo, pode ser?)
- Pois olha, eu preferia morrer.
(glup, eu sabia, eu sabia)
- Mas porquê, Joãozinho?!
- Porque não gostava nada de viver com problemas.
(inspira, expira, nova tentativa)
- Mas, já pensaste bem nisso? Se ficares vivo, fazes tudo por tudo para resolveres o teu problema e depois já podes viver à vontade, contente e feliz.
- Não posso nada.
- Não?!
(ai ai ai)
- Não, porque atrás de um problema vem logo outro.
Sexta-feira, Julho 22, 2005
o mais stressante foi mesmo a história dos "autógrafos" dos personagens Disney. Eu explico: à entrada vendem-se uns livrinhos em branco para que as criancinhas possam recolher os autógrafos de uns meninos e meninas que por lá andam, vestidos de Donalds, Mickeys, Minnies e afins, a distribuir beijinhos, adeuses e rubricas apressadas. Mas só a uns quantos afortunados, ou seja, àqueles miúdos que têm a sorte de espetar com o livrinho no focinho ratolas do Mickey e de este, por acaso, engraçar com eles e estar para aí virado. A coisa está cronometrada ao segundo para criar nas crianças uma apetência selvagem pelo rabisco do personagem: os gajos chegam de repente, ficam por cinco minutos, distribuem o que têm a distribuir de acordo com critérios insondáveis e depois ala que se faz tarde, indiferentes às súplicas de pais e filhos, deixando atrás de si um rasto de criancinhas de três e quatro anos a chorarem baba e ranho, de livrinho e caneta espetados em vão no ar. Adeus, adeus, agora não dá mais, chauzinho até depois. É cruel, pá, é cruel. Andava por lá um filho da puta de um pinóquio que eu, se pudesse, arrancava-lhe o narizinho e enfiava-lho num sítio que eu cá sei... por três vezes o Joãozinho se postou à frente dele e eu atrás do miúdo, feita idiota, please, please, je vous empris, pinóquiô, pinóquiô, e o sacana dava meia volta e desandava. Ainda hoje, o miúdo me fala no pinóquio e me pergunta porquê, porquê? Mas a justiça não dorme e eu tenho fé e mais não digo, para não parecer uma cabra vingativa. Bom, mas o que acontece então quando surge, por exemplo, o Pluto, no horizonte? Uma chusma de crianças à beira da histeria, seguidas pelas respectivas mães e pelos paizinhos, estes de máquina em riste, dispostos a tudo para captarem o momento. Como os mais pequenos ou, pura e simplesmente, os mais tímidos, não conseguem chegar à frente, as mães assumem-se furisosas guarda-costas e vai de furar a turba à cotovelada e de pespegar com o livrinho na tromba do personagem, no género assina-me esta merda e faz-me o puto feliz, se não parto-te os cornos, meu cabrão. Pelo caminho levam tudo a eito, o Diogo levou com uma cotovelada nos rins de uma italiana que até ficou com falta de ar. Aquilo é um espectáculo patético e muito humilhante, é o que vos digo, além de stressar os miúdos, que cedo se apercebem de que as suas chances são de uma num milhão. A estada cedo se transforma numa caça ao personagem disney.E o pior de tudo é que eu também entrei naquele jogo sujo e corri e chamei pela Branca de Neve, snow white, snow white, here! Here!, que o puto chorava porque só tinha dois autógrafos e os irmãos, uns cavalões descarados, tinham oito e eu, anda lá meu querido, se for preciso mato ou estropio, mas o estupor do Pluto há de apôr a patinha de peluche no teu caderninho, eu seja ceguinha. E pôs mesmo.O que me consola é pensar que estava um calor de assar passarinhos nas árvores e que todos os quidos bonequinhos que me rejeitaram os filhos coziam certamente, dentro dos seus fatinhos de pelúcia. E que hoje, amanhã e depois, ainda por lá andarão ( ao serviço de uma máquina de fazer dinheiro que vende magia a rodos mas que se está verdadeiramente cagando nos sentimentos das crianças). Oh yeah!
Sexta-feira, Julho 15, 2005
(ou a intoxicação noticiosa como fonte de inspiração infantil)
Diogo: Mãe, eu, o João e o Felipe, vamos fazer um grupo e até já tem nome e tudo, somos os élaiquides (LA Kids).
Eu: E já têm alguma música?
Diogo: Sim, já temos uma! ó Joãozinho, canta lá a nossa música para a mãe, aquela que tu inventaste...
(afinar de voz e pigarreio)
Joãozinho: Qui tal nós doisse...numá banhêra di esspuma friáaa...com umá miúda bem girá...lá ná casa piáaa...que é uma fantasiáaaa... (repete várias vezes até à standing ovation do outro membro do grupo)
Segunda-feira, Julho 11, 2005
com o ciclista Lance Armstrong que venceu a luta contra o cancro e lançou umas pulseirinhas de borracha com o mote live strong. Até agora, consta que já se venderam trinta e dois milhões. A moda entrou pelos adolescentes adentro e, como todas as modas adolescentes, impôs-se furiosamente como mais uma forma de os pais, contrariados, deitarem dinheiro fora. Hoje, miúdas e miúdos andam todos com os braços carregados de pulseiras de borracha até ao cotovelo, com palavras de ordem do género não ao racismo, salva o planeta, viva a amizade, tudo muito bonito e politicamente correcto, verdade se diga. O único problema é que há sempre lugar para mais uma pulseirinha, pois há sempre mais um mandamentozinho simpático que se pode inventar. Ao princípio, vinham como brinde em meia dúzia de pasquins duvidosos mas, depois, houve um esperto qualquer que resolveu juntar à pulseirinha uma pastilha elástica e distribuir o duo maravilha por todas as pastelarias do país: um euro, por uma pastilha e uma mini câmara de ar. E lá vai mais uma coisa daquelas para o braço e uma pastilha para a boca. Era bom que aparecesse uma a dizer, salva os teus dentes, diz não à cárie.
Sexta-feira, Julho 08, 2005
um amigo meu
não via o Diogo há que tempos e reencontrou-o numa festa.
Ele: Então, pá, como é que isso vai? está tudo bem contigo?
Diogo: Referes-te à minha vida pessoal ou à minha vida profissional?
(...)
Terça-feira, Julho 05, 2005
- Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
- O ovo!
- A galinha!
- Não, o ovo!
Diogo, 9 anos:
- Cá pra mim, a primeira galinha foi a filha deficiente de um pterodáctilo.*
* do Gr. pterón, asa + dáktylos, dedos. m., Zool.,(no pl. ) género de répteis voadores, de que se encontram fósseis.
Sexta-feira, Julho 01, 2005
em que o João me pergunta porque é que a Minnie e o Mickey não viviam juntos, cheguei a uma conclusão: não sei porque tanto os psicólogos se preocupam com a eventual disfuncionalidade das famílias monoparentais, homossexuais e outras coisas que tais. É que as influências maléficas que alegadamente terão, no desenvolvimento infantil, estão nitidamente sobrevalorizadas. Reparem.Tanto nós como os nossos filhos, crescemos à sombra das histórias de um gajo que tinha, obviamente, muitos problemas para resolver - problemas de pilinha, de colinho, de mamã e de papá. Sim, esse gandamaluco, o rei da disfuncionalidade familiar, Walt Disney, himself. A saber: os sobrinhos vivem com os tios e são orfãos de pai e mãe, os tios não têm filhos e nunca casam com as namoradas, por quem são dominados à distância (o Donald e a Margarida, a Minnie e o Mickey, o Pateta e a Clarabela); ao Bambi, ao Nemo, ao Dumbo, à Branca de Neve, e a mais uns outros, mata-lhes a mãe; alguns nem nunca a tiveram, como a Pequena Sereia, a Bela (do Monstro) e a Jasmin (do Aladin); a uns poucos, espeta-lhes com uma madrasta psicopata (Cinderela, Branca de Neve) e arranja-lhes uns maninhos tipo Caim (Cinderela, pai do Simba); ao pobre do Simba, impinge-lhe um tio serial killer que lhe mata o pai, que também o quer matar a ele, e que tenta sacar a mãe; ao Dinossauro e ao Tarzan, mata-lhes a família num acidente cataclítico e fá-los serem adoptados por bichos improváveis, como macacos, ursos (o Mogli) e suricates (sim, eu sei, algumas das histórias não são originais do Walt e outras foram feitas pelos que se lhe seguiram, mas o que interessa é que o espírito da coisa se mantém); há orfãos em barda (Aristogatos, Papuça e Dentuça, Dama e o Vagabundo) e há a adaptação de infanticídios e fratricídios bíblicos (O princípe do Egipto). Ufa! Cadê um simples pai e uma simples mãe, rodeados de filhinhos felizes para sempre, hein?!Famílias monoparentais? Casais homossexuais? Adopção por tios, primos, avós, vizinhos do lado, animais? Tudo bem. Venham elas. Para os putos é normal, no problemo.
Terça-feira, Junho 28, 2005
Sexta-feira, Junho 24, 2005
o joãozinho usa óculos
- Mãe, dizer caixa de óculos é feio?
- Não, Joãozinho, é uma coisa que se diz quando se quer brincar com alguém que usa óculos, como se te dissessem olha o cabeça amarela! por seres louro, percebes? Não tem mal, não fiques a pensar nisso.
- E paneleiro?
- ...
Quinta-feira, Junho 16, 2005
pai?
- Pai, um dias vai morrer, não vais?
- Vou, Joãozinho, todas as pessoas morrem, mas não te preocupes que ainda falta muito tempo.
(pausa)
- Pai...
- Diz.
- Prometes que, antes de morreres, me ensinas todas as coisas do mundo?
Terça-feira, Junho 14, 2005
olhamoutro...
- Diogo, estás com o cabelo enorme, tens que o cortar.
- Ai não, mãe, que eu quero ir sexy para a escola!
- Ir "sexy"? Mas que raio é isso de ir" sexy"?
- Quero ir muita giro para impressionar a Mariana...Bem, mas agora também não vale a pena porque ela está em casa com uma conjunvite.
(breve pausa, seguida de uma garfada)
- ... O que só prova que nascemos um para o outro: eu também já tive uma conjuntivite.
Domingo, Junho 12, 2005
grémio literário
Às tantas, o Joãozinho (5 anos, já se sabe!), decide entrar na conversa e mostrar que também percebe de literatura:
- É o Dom QuixoQUE, é o Dom QuixoQUE !
Eu não resisto a perguntar-lhe:
- Mas quem é esse tal de Dom QuixoQUE, Joãozinho, sabes?
E vai ele, assim, de chofre:
- Então, é o DOMQUI *, Hi hó! Hi hó!, CHOQUE, Pum! (e simula um murro no ar com o punho fechado).
...
Banzadinha com o improvável raciocínio poliglota da criança (desta criança que carreguei dentro de mim!), viro-me para o pai e disparo, num murmúrio: Tu viste-me isto? É mesmo esperto, o raio do miúdo!
Só que o miúdo, além de esperto, tem ouvido de tísico e, vai daí, sai-se com esta (jureusejaceguinha!) :
- Estás fascinada comigo, não é mãe?
- Hã?
(ainãoquenãotou!)
* portanto, "donkey" = " burro" em inglês, não sei se estão bem a ver.
Terça-feira, Junho 07, 2005
arquivos:
"Na piscina, o herói (João, 4 anos), munido de uma hiper-mega-metralhadora de água de longo alcance, dotada de um invejável poder de raio, salva um pobre e indefeso velhinho (Diogo, 8 anos) das garras de uma terrível baleia assassina (Beatriz, 11 anos):
Vai, vai mata-a com um tiro, vai! Ahhhhh que vou morrer! Toma, toma, baleia mazona, larga-o! (fshhhh, fshhhh)! Aiiiii, que estou ferida!, vou morrer para o fundo do mar... (mergulho) Obrigado, meu herói, meu salvador, obrigado!... diz o velhinho saído das garras da morte (mergulho).
E vai o salvador do universo, em voz baixa e para consigo próprio: Olha, já agora, mato também o velho! Pum! (fshhhhh, seguido de mergulho)
(Olha, já agora, alguém tem o contacto do Dr. Daniel Sampaio?)
Sexta-feira, Junho 03, 2005
o mundo
visto pelos olhos de um utilizador do infantário, no dia do aniversário da irmã mais velha e dirigindo-se a esta:
- Então, amanhã, lá no colégio, passas para a sala dos doze anos, não é?
Domingo, Maio 22, 2005
CONHECER de cor as farmácias de serviço, hoje é a Macedo, ali prós lados de Benfica,
IMPINGIR molhos de fotos às visitas, vejam como ele aqui está tão querido, mesmo sabendo que, a elas, não lhes está nada a apetecer (e eu, nas tintas),
TER a absoluta certeza de que o espasmo involuntário que o fez revirar os cantos da boca para cima quando ainda não tinha um mês, era um sorriso só para mim, a mostrar que me adora,
INVEJAR em silêncio a liberdade das amigas que não têm filhos e querer voltar a ser como elas, mas sentir um assomo de regozijo quando elas mo invejam, porque, afinal, ele é lindo, e nunca houve nenhum bebécomo ele,
RECONHECER o seu choro, como uma sirene no coração, por entre os berros de mais dez recém-nascidos, quando ainda mal fomos apresentados,
CONSTATAR que a porcaria daquele café - que não posso ir tomar depois de jantar - era a coisa que mais me apetecia na vida,
ACHAR que ninguém sabe pegar nele ao colo e que as probabilidade de o deixarem cair são de 20 em 20, cuidado, olha a cabecinha, agarra-lhe bem o pescocinho, não lhe esborraches a mãozinha,
TER um álbum, actualizado dia a dia, para o primeiro filho, mês a mês, para o segundo, e não ter álbum nenhum para o terceiro, que vive de imagens emprestadas, sobras de paciência e mimo desmedido, ó mãe, posso, posso, posso? podes, podes, PODES!
SUBSTITUIR o jornal diário e contos de Nabokov pelos ensinamentos do Dr. Brazelton, capítulo XI, a retenção das feses,
ACHAR a estética da cadeirinha de passeio, gostas mais das borboletas verdes ou azuis, muito mais importante que a estética de Hegel,
ESQUECER que, num cinema perto de nós, também se exibem filmes sem animais que falam;
SER rodeada por um gang armado, às duas da manhã, à porta da loja da BP, e entrar mesmo assim, porque já não há leite em casa,
CHORAR baba e ranho ao ler uma porcaria de um papel que diz O Diogo Já Sabe Ler ou A Direcção Certifica Que A Beatriz Concluiu O 1º Ciclo Do Ensino Básico Com Distinção,
FAZER amizade com uma cigana, às três da manhã, nas urgências de pediatria, e ficar a saber que as ranhocas do Fábio Maurício também estão verdes,
OUVIR o seu primeiro gpatrnmnqprrr e jurar a pés juntos que o que ele disse foi MAMÃ,
IR jantar fora e ter o telemóvel na mesa, ao lado do garfo, com um toque da Romana e o volume no máximo, não vá acontecer alguma coisa, naquela meia hora que demoramos a deglutir uma refeição completa ,
SORRIR para as outras mães na rua e elas sorrirem de volta, como troca o santo e senha de uma irmandade secreta,
ACORDAR em sobressalto com o miúdo da vizinha a chorar, quatro andares abaixo, a pensar que é o nosso,
os pesadelos, DEIXAREM de ser o eu cair e nunca mais chegar ao fundo, para passarem a ser o ele a cair e eu a não o conseguir apanhar,
GOSTAR ainda mais do meu amor, porque, além de meu amor ele é, também, o pai dos meus filhos,
DESESPERAR, quando ele nos pergunta coisas como onde acaba o universo?, porque é que a gente não vê no escuro? e porque é que não caímos quando a terra dá a volta?, e o número "dez", é muito ou pouco?,
ACHAR que o homem mais sexy do mundo não é, nem o Brad Pitt, mas sim o vizinho do lado, aquele que leva a filha bebé ao colo e lhe diz coisas como quem éa lindinha do papá, quem é, cucuuu, titi, dádá, e nós, eh pá, ele é tão amoroso com a miúda, caraças, que querido, que tesão!,
ENRIQUECER o léxico com palavras novas, que nem por isso representam realidades especialmente agradáveis, como bolsar, mecónio, mamilo gretado, mama encaroçada, convulsões e hérnia umbilical,
CONSTATAR que os seus cabelos, pele e olhos muito escuros, até têm algumas parecenças com as minhas sardas, cabelos louros e cor desmaiada, é a sobrancelha, estão a ver, sai a mim, vai buscá-la ao avô materno, já é coisa de família, e a ponta do dedo mindinho também é parecida com a minha,
TER vontade de chorar quando ele tropeça na festa da ginástica, e de saltar para o meio do palco, abraçá-lo e resgatá-lo para longe das vacas das professoras, que hão de ter sido as culpadas, dê lápor onde der;
FAZER tudo para o empandeirar por uma horas e, uma vez deitada na banheira cheia de espuma, odiar o ricochete do silêncio nos quatros cantos da casa,
IR para longe, mas nunca mais ir completamente, e passar a ficar um bocadinho para trás, presa pelo coração. Para sempre.
Sábado, Maio 21, 2005
o distraído, o que sai de casa com uma meia de cada cor, o que veste as calças do irmão três números abaixo e chega à escola com as bainhas acima do tornozelo e a braguilha aberta, o que faz anos e, após lhe cantarem os parabéns (muitos
anos de vidaaaaaaaa), já as palmas quase acabaram, esquece-se de apagar as velas (então, Diogo???? Apaga as velas!!! Ah...sim...já nem me lembrava...), sim, esse mesmo, chega ao pé de mim de manhã e diz:
- Mãe, já viste como tou vestido, todo a combinar? Os calções dão com a t-shirt e com a camisola de cima!
- Já vi, estás muito bem, todo em tons de beije.
- E também lavei os dentes, olha, vê, estão branquinhos. E pus perfume!
- Hummmm, cheiras muito bem!
- E penteei-me!
- Mas a que se deve tanta produção? Cá p´ra mim, anda namorada na costa...
- Por acaso, é verdade, anda mesmo. Achas que estou bonito?
- Estás lindo.
(ah!...é por causa destes pormenores pequeninos, que acontecem de fugida num nanosegundo, que ainda dou por mim a acreditar naquela coisa da maravilhosa inocência das crianças, etecetera e tal. Às vezes, parece que é mesmo verdade.)
Sexta-feira, Maio 20, 2005
(ou os amigos shity shity bang bang)
E quando os nossos filhos escolhem melhores amigos que não prestam, hein? O que fazer? Big, big fucking problem, é o que vos digo (além de poder dar direito a trauma com direito a divã).
No ano passado, quando o maior amigodo meu filho do meio fez oito anos, deu uma festa num recinto perto do colégio e convidou vinte colegas de turma. Nove ficaram de fora, e um deles foi o meu filho.
No fim das aulas, a professora (um modelo de sensibilidade e tacto) ordenou que os meninos que iam à festa de perfilassem à direita e os que não iam, à esquerda. O meu filho seguiu obedientemente para a esquerda, juntamente com os restantes não-convidados, enquanto os outros lá saiam mais cedo, com direito a balões, insufláveis, salgadinhos, batatas fritas e pinturas na cara por uma tarde.
Eu soube-o porque, em amena cavaqueira com uma mãe em frente a uma bica no café da esquina, ela me falou na festa onde ambos os nossos filhos estariam naquele momento. Qual festa?Disse-mo, enquanto se me contraía o coração como se o king kong mo apertasse e o exibisse em triunfo no topo do empire state building. Mas o Diogo não foi convidado, eu vou buscá-lo agora... (e a outra boquiaberta, incrédula).
Pago a bica, saio a correr, mando chamá-lo e olho-o ansiosa, auscultando-lhe o semblante. Ele brinda-me com o sorriso de sempre. Tudo bem? Tudo, mãe. Espero, embora saiba que nada me diz nem dirá(ou não conheça eu o silêncio de fundo deste meu filho). Às tantas não aguento, ai merdinha que explodo já aqui!e pergunto-lhe da festa. Explica-me com naturalidade que não, não foi convidado, mas não se importa, continua a ser amigo do amigo. Remeto-me a um silêncio culpado. Nos dias seguintes, fala dele como sempre: o dilecto e predilecto, o mais atrevido, o que o faz rir, o companheiro das partidas.
E eu a pensar, deixo estar ou não deixo, digo-lhe que o amigo não o merece e que quem é nosso amigo não faz o que ele fez, magoo-o e obrigo-o a crescer um bocadinho, aqui e jáou deixo andar? Os dias passam e eu acabo por lhe perguntar (a consciência na retranca) se alguma vez perguntou ao amigo a razão do não convite. Responde-me que por acaso até sime que o amigo não o convidara porque, no ano anterior, ele fora aos anos dele e não lhe levara prenda. Não lhe levara prenda. Não...lhe...le...va...ra...pren...da.
Stop.Pause.Rewind.
O amigo.
Eu e o pai (entre nós) chamamos-lhe o Godzilla - miúdo mal-criado, rude, grosseiro e conflituoso - o típico bully. De todas as vezes que deparei com ele no seu ambiente natural(o recreio), a criatura entretinha-se a arrear num dos colegas (daí o nome de baptismo). Compreende-se assim que, sendo o mais temido, seja também o mais seguido pelos outros e que tal se possa confundir com popularidade.
Aquilo é um mix de genes e educação, e basta atentar na mãezinha para toparmos o filme todo: uma quarentona nova-rica que até os pelos púbicos deve oxigenar, com dedinhos suínos forrados a cachuchos e semblante forrado a excesso de base e antipatia. Tão certo como eu estar aqui a escrever, deve ter sido ela quem aconselhou o filho a descartar o meu (e os outros oito desgraçados) da gala do princípe, depois de feitas as devidas contas de cabeça.
E então, que fazer? Explicar-lhe que quem condiciona uma amizade à entrega de uma prenda não vale uma carta de pokémon rasgada? Que a godzilla-mãe é má e que o filho não é melhor? Suspeito que de nada lhe serviria a verdade e que ele continuaria a dizer que não se importa, que gosta do amigo à mesma e que ele agora está melhor e já não bate tanto nos outros e que jurou que para o ano o convidaria... Dou por encerrado o assunto, receando que a emenda se revele bem pior do que a merda do soneto.
Agora tenho um big, big problem: aproximam-se os anos do meu filho. Da lista provisória, que é ao gosto do freguês (convidas quem quiseres, professoras, contínuos, senhoras do cacifo e da cafetaria...), constam todos menos o Godzilla. Então e o teu amigo? Ora mãe, não o pus na lista porque sei que não queres que ele venha (não: dá-me uma facada, vá! é que mais vale apunhalares-me jáaqui, qualquer coisa deve custar menos do que isto, foda-se, que puta de mãe eu sou...).
Com um anzol retorcido, repesco a minha voz do fundo do estômago, mas eu nunca disse que não o podias convidar. Não gosto muito dele depois do que aconteceu, é verdade, porque a amizade não se mede pelos presentes que damos uns aos outros, mas se tu achas que é de facto o teu melhor amigo, então ele deve vir à tua festa. Quando fazemos anos, devemos ter connosco as pessoas de quem mais gostamos. Uma expressão de alívio ilumina-lhe as bochechas, inchadas pelo sorriso, está bem, mãe, então quero.
Mais um stop.
Outro pause.
E novo rewind.
O motherfucker do presente.
Os meus três filhos, por junto, vão as dezenas de festas de aniversário ao longo de um ano lectivo. Até o de cinco anos tem uma vida social melhor e mais intensa do que a minha (bem, até uma carmelita descalça tem mais vida social do que eu, não será por aí que... adiante).
Ora, tendo-lhes cabido em sorte uma mãe que é a cabra mais distraída ao cimo da terra, uma duh!que conta com eles para a lembrarem do dia e hora do dentista, do pagamento das mensalidades, dos anos das vacinas, dos dias de passeio, das datas das inscrições e das gotas de fluór, é possível que, entre ir buscar aqui e levar ali, natações, futebóis, ballets e o caralhinho que ma foda, me tenha esquecido da merda do presente para a centésima nonagésima festinha em horário pós-laboral. O mais provável é que não tido tempo, sequer, para o comprar. Agora, de uma coisa sei: chegada a uma festa de aniversário de mãos a abanar, ter-me-ei desculpado à exaustão pela falta do estuporado do baybladeou o camandro, e sorrido muito, muito (que sou asneirenta, mas não mal-educada).
Anyway, a vaca oxigenada terá levado a questão a peito e eu imagino o que é que os outros oito tristes que ficaram de fora terão falhado nas festas anteriores. Várias hipóteses se perfilam: terem acertado a tabuada toda do dois, enquanto o godzillazinho metia água; terem bebido uns desmesurados três (três! Olhó gasto!) copos de sumo num qualquer aniversário anterior, terem oferecido um boneco da loja dos trezentos (com o preço colado a dizer 1,99 euros) ou não terem cantado o parabéns a você com suficiente convicção. Por exemplo.
Conclusão.
Daqui a umas semanas vou ter a viúva porcina em minha casa, mais a sua diabólica descendência. A sequela da Semente do Diabo, em directo e ao vivo do quintal aqui da vossa amiga. O melhor écomeçar já a treinar o esgar-pseudo-sorriso de anfitriã com que os receberei, aos dois, no meu humilde lar e aviar uns comprimiditos para os nervos, que com o jeito que eu tenho para fingir sentimentos, a mulher ainda sai de lácom uma garrafa de champommy pelos cornos abaixo, uma velinha em cada tímpano e um croquete miniatura em cada narina.
Ai. Ai que eu.
Quinta-feira, Maio 19, 2005
joãozinho ao jantar
(ou talvez andemos a ver National Geographic a mais, não?)
- Mãe, este bife que estamos a comer é de quê?
- É de vaca.
- Coitadinha da vaca.
- Pois é. Coitadinha.
- Olha, é a vida...(suspiro). Afinal, nós também somos comidos por leões e tigres e isso.
Terça-feira, Maio 17, 2005
é no circo? No jardim? No cinema? No McDonalds? Nada disso. A tarde perfeita, perfeitinha mesmo, assim como uma equação que noves fora nada, é um lanche no Frutalmeidas, ali à Av. de Roma.Os quatro apertadinhos numa daquelas mesas pequeninas e coladas umas às outras ao longo de um corredor fininho de chão de calçada, e à nossa frente um prato cheio de pastéis de massa tenra quentinhos, ui que isto queima as mãos! ai que me arde a língua! , rapidamente substituídos por outros ainda mais quentes, acompanhados por copos de sumos naturais, acabei o de maçã, agora quero provar o de manga, eu para mim quero de pêra, ai mãe que já bebi o meu todo, posso pedir de morango? E, depois de as barrigas terem crescido ao ponto de aquele corredor nos parecer ainda mais estreitinho, a mesa ainda mais pequenina e as cadeiras, dignas do refeitório de uma creche; depois de acharmos que nunca mais na vida vamos poder ver pastéis de massa tenra e fruta líquida à frente, fazemo-nos a uma fatiazona de tarte de maçã estrategicamente colocada no meio da mesa, despedaçada a preceito por quatros garfos gulosos que batem com os dentes uns nos outros só pelo gozo do clink clank. Chegamos a casa de barriga cheia e lá pela hora do jantar, eles sem poderem tomar banho e eu, enjoada que nem um peru bêbado e mortificada pela culpa, incapaz de entrar na cozinha, obrigando assim o pobre pater familias (que no interim regressa ao lar, esfomeado que nem um urso pós-hibernado) a um jantarinho frugal de leite com chocapics, pãozinho com manteiga e fruta. Com alguma sorte, terá ainda direito a um pastel de massa tenra, frio e amachucado, transportado com carinho no bolso de alguém que teve mais olhos que barriga.
Mas que a tarde foi perfeita, lá isso...
Segunda-feira, Maio 16, 2005
A meio de uma sessão non stop de Disney Channel, surge a dúvida e, logo a seguir, a inevitável pergunta:
- Mãe, porque é que o Mickey e a Minnie não vivem juntos?...
Sexta-feira, Maio 13, 2005
Antes de ter filhos em idade escolar, tinha a ideia de que os piolhos eram uma bicheza nojenta, aniquilável pela via da desfumigação, que se limitava a atacar os miúdos pobres das barracas.Se é certo que continuo a achá-los nojentos (são, aliás, os seres vivos mais repugnantes, logo a seguir à carraça), a verdade é que, hoje em dia, eu e eles somos tu cá, tu lá, assim género bom dia senhor piolho então, como vai a família? a esposa está melhor das cruzes?, e ele, ora bons olhos a vejam senhora dona vieira, então e como vai a dieta? já perdeu aqueles quilinhos que tinha a mais?. É que todos os anos, por altura da Primavera, com o tempo a aquecer e a vida a despontar por todo o lado (designadamente, na cabeça dos meus filhos), não tenho mãos a medir.À primeira circular vinda da direcção do colégio a alertar para os perigos da pediculose que ataca todos os estratos sociais, é ver-me sprintar até à farmácia mais próxima e esgotar o stock de pára-pios, quitosos e afins. Ele é loção, cremes e champôs, preventivos e de tratamento, ai Deus que me acuda e me proteja as cabeças dos meus ricos meninos...Quem já lidou com este problema sabe bem que, não obstante os bichos em si ficarem mais ou menos KO com os químicos, há algo ainda mais horripilantemente aqueroso e imune a qualquer veneno que se lhe despeje em cima: as lêndeas. As lêndeas são a versão microscópica do alien o oitavo passageiro e correspondem aos ovinhos que os piolhinhos kidos vão deixando agarradinhos aos fios de cabelo por onde passam. Para tamanha praga, apenas uma solução: fazermos como oschimpazés e restantes primatas, sentarmo-nos com a cria à nossa frente e, pacientemente, catá-la um a um (mas não os comermos a seguir, claro). A operação implica uma preparação psicológica prévia e uma auto-indução de paciência, principalmente quando, como é o meu caso, se tem filhos que exigem estar à moda - que é a moda surfista-guedelhudo-morangos-com-açucar-o´neill-roxy-life-bué-fixe. Depois de catadinhos todos os ovinhos com um pente especial de dentes muito fininhos e de ir tudo sanita abaixo, depois de enfaixarmos o pulso e o polegar doridos e emborcarmos um anti-inflamatório, as cabecinhas levam um banho com álcool a 90º graus e água destilada, tudo misturado com umas palhetas de...acho que é boreto de sódio e já está. Caso tenhamos a sorte de os nossos filhinhos não roçarem as cabeças em mais nenhum miúdo até ao fim do Verão (yeah...right!), só na Primavera seguinte voltaremos a estremecer de nojo e repugnância e recordaremos a simpática tendinite até então adormecida.(que bichinhos filhinhos da putinha. foda-sezinho. e agora vou ali coçar a cabeça que fiquei com comichões...ai!)
Segunda-feira, Maio 09, 2005
depois de mais uma festa de aniversário (neste caso, a do filho do meio) na qual pontificaram (como agora soe dizer-se) rapazes vários, rapazes muitos!, com idades compreendidas entre os cinco e os doze anos, de espírito destrutivo q.b., caneladas demolidoras, ténis mal-cheirosos, alguma tendência para pontapés certeiros em bens materiais valiosos e insubstituíveis, bem como para resvalos junto a esquinas de mesas, o atafulho descarado de grosas de rissóis nos bolsos dos calções e para o entornanço de coca-colas e fantas no perímetro situado entre o sofá e a televisão (inclusive); rapazes, esses, dotados de um registo sonoro semelhante ao dos gemidos de um alce no cio, largados à solta num espaço vedado e ao ar livre, por cerca de sete longas sete infindáveis horas:
- Correu tudo bem, não achas?
- Sim. Ninguém se aleijou.
Quarta-feira, Maio 04, 2005
- Sabes, hoje ouvi uma conversa entre eles que até me comoveu. Tive a certeza de que gostam de mim.
- Ora, que tolice, é claro que gostam de ti, és pai deles! Mas diz lá, que conversa foi essa, assim tão reveladora?
- Ia a passar no corredor e ouvi-os no quarto a discutirem. O Diogo acusava o Joãozinho de estar a mentir e a certa altura diz-lhe então jura! jura pela saúde do pai! E o Joãozinho pôs um ar solene e respondeu: eu juro pela saúde do pai. E continuaram a brincar.
Segunda-feira, Maio 02, 2005
Essencialmente, mais um pin de plasticina para o blusão de ganga, um par de brincos com formato de cocó de cão que terei de usar até as orelhas infectarem, três ou quatro cartões e recortes para atafulhar numa carteira que já não fecha, uma caixinha para as jóias que não tenho e não uso (ai, espera, que agora tenho uns brincos-poia...) e que fica a destoar que é uma maravilha sobre a cómoda Luís XIV, uma dúzia de recortes de corações com adoro-te mãe colados a fita-cola (quando não a UHU) nos vidros da porta da sala, no frigorífico e na cabeceira da minha cama.
E assim, aos poucos, como quem não quer a coisa, vou desistindo em definitivo do meu sonho Elle/Casa-Claúdia.
Quarta-feira, Abril 27, 2005
Caixas de sapatos furadas, uma dúzia de larvas simpáticas e tudo às cavalitas uns dos outros à cata das folhas de amoreira mais altas e mais tenras, pelos jardins de Lisboa fora. Depois, a parte nojenta ou lá-se-vai-a-poesia: as minhocas que fogem da caixa, os casulos que se espalham pelos rodapés da casa e, last but not least, as horrendas borboletas que surgem subitamente de nenhures, esvoaçando resolutas na minha direcção, até à aniquilação final (a delas, claro).
Folgo em saber que, não obstante o advento dos gameboys e das playstations, há coisas que nunca mudam.
Segunda-feira, Abril 18, 2005
- Mãe, posso ir dormir hoje a casa da Marta?
- Não vais ter teste de Matemática para a semana?
- Sim, é para isso que vou para lá: nós vamos estudar juntas.
- E quanto é que a Marta teve a matemática no período que passou?
- Dois.
- Ah. E tu, ainda te lembras da nota do teu último teste?
- Pois. Também tive dois. Mas tive três no período, mãe!
- Então explica-me lá como é que vocês duas, que não percebem nada daquilo, vão estudar juntas?
- Olha, é da maneira que ensinamos uma à outra.
- ...
...ou sou só eu?
Sexta-feira, Abril 15, 2005
a lojinha
Ou quando o espírito mercantilista vence o espírito desportivo:
- Mãe, a partir de hoje sou do Sporting.
- Ai sim? Então porquê, Joãozinho? Porque o Sporting ontem ganhou, foi?
- Não. Porque procurei no meio dos brinquedos todos e só encontrei coisas verdes para vender.
Hoje em dia, quase todos os miúdos saem da pré com noções básicas sobre números, sabendo fazer adições simples e até subtracções. Só que a compreensão do que é o número ou a unidade arrasta consigo uma consequência chata: a incompreensão do conceito de infinito. Porque, para um puto de cinco anos, preso aos limites da sua realidade imediata, é impossível conceber algo que nunca acaba. Por mais que lhes expliquemos, o infinito não passa de um número muito, muito grande, enorme, do comprimento de uma cobra gigante ou de um novelo de lã desenrolado. Mal de mim, que ultimamente sou encurralada por infinitos aos milhares, como se fossem pequenos gremlins. No supermercado, no carro, à saída da escola, a meio do jantar, durante a lavagem dos dentes e no xixi a meio da noite. Posso mesmo dizer que sou uma ilha de ignorância, rodeada de infinitos por todos os lados. Mãe, quanto é que é um infinito? Qual é o número maior que o infinito? Quantos zeros tem o infinito? Onde é que acaba o infinito? Quanto é que é infinito mais três? Como é que se escreve o infinito? A minha resposta é invariavelmente pobre, paupérrima. É a resposta de alguém que guarda contra a matemática o enorme rancor de lhe ter barrado para sempre a vocação natural de arquitecta e de a ter atirado para os braços frios e bafientos da Lei. João, o infinito não é um número; é mais a ideia de que os números nunca acabam, de que a seguir a um vem sempre outro maior e que podes sempre acrescentar mais um e mais um e mais um, que nunca existe um último número. O infinito é a possibilidade de os números ficarem sempre cada vez maiores sem nunca terem um fim, entendes ? Olhar de esguelha. Confuso, de quase desdém. Mas como é que se escreve isso, mãe? Quantos números leva? É do tamanho deste prédio?
Ah!; não é fácil, a fase do infinito. Mesmo nada.
*grito de guerra do famoso astronauta Buzz Lightyear, do Comando Estelar (óbvio).
Quinta-feira, Abril 14, 2005
há noites assim
Ah, porra! Que às vezes me sinto tão frágil, tão pouco mãe-torre, torreão, bastião, e tanto - mas tanto! - ou mais, muralha medieval que se vai com um simples sopro sonhado de lobo mau. Ah, porra.
Domingo, Abril 10, 2005
- Joãozinho, não estou a gostar da maneira como te andas a portar. És mal-educado para as outras pessoas, viras-lhes as costas quando elas te falam, não respondes quando te dizem olá, amuas por tudo e por nada. Não podes fazer isso, é muito feio. Quando eu ou alguém falamos contigo, não te vais embora nem bates com a porta, ouviste? E agora fica aí um bocadinho a pensar no que te disse e vais ver que eu tenho razão.
(eu saio, ele fica sentado no sofá, emburrado, a fingir que vê televisão. Passados cinco, dez minutos, vai ter comigo)
- Mãe, posso falar contigo? Quero dizer-te uma coisa.
- Sim, claro, Joãozinho, diz: o que é?
- Era só para te dizer que NÃO fiquei a pensar no que tu disseste.
Quinta-feira, Março 31, 2005
Personagens:
Laurinda, a empregada doméstica, sessenta anos, uma bolinha muito kida de metro e quarenta, a lembrar a medium do poltergeist;
V., a avó, sessenta anos, uma enxutaça loura de um metro e setenta, bonita e modernaça; João, um neto, cinco anos; Diogo, outro neto, oito anos. A cena passa-se no interior do carro da avó.
Avó: quem é que vocês acham que parece mais nova, eu ou a Laurinda?
Joãozinho: a Laurinda, claro.
Avó (a desconsolar, mas ainda esperançosa): A sério?! E tu Diogo, o que é que achas?
(silêncio pensativo)
Diogo: Beeem...vista de trás, tu pareces muuuito mais nova!
Segunda-feira, Março 21, 2005
Antes de ter filhos, era muito pouco tolerante para com os desvios à norma social, praticados pelos progenitores e respectivos rebentos. Nos restaurantes, qualquer grito isolado, corrida rasante ou choro estridente, eram motivo para humpfs! indignados. Já não me lembro bem, mas parece que pensava que pais e filhos deveriam ficar fechados em casa e abster-se de socializar em público, para descanso do resto da população, até à maioridade dos segundos, ou qualquer coisa assim. Ou então, que se dividissem os espaços públicos em com crianças e sem crianças, no género fumadores e não fumadores, para que ninguém fosse apanhado à má-fila (ainda hoje, acho que não seria má ideia haver, por exemplo, voôs children-free: ir várias horas enclausurado com um bebé que se esganiça com falta de espaço e dores de ouvidos, pode estragar umas férias ainda antes de estas terem começado).Quando os meus filhos começaram a crescer dei por mim a pensar que, ou saímos com eles e seja o que Deus quiser ou continuamos em casa até nos transformarmos geneticamente em plantas de interior envasadas, reduzidos à actividade fotossintética e à absorção de nutrientes. Optei pela primeira hipótese, claro está. Para minimizar os estragos, desde o primeiro dia foi tudo educadinho como deve ser, com todos os fachavores, obrigados e quietinhos e caladinhos, que o respeito é muito bonito, especialmente quando é pelos outros. Uma trabalheira, portanto. No geral, as coisas têm corrido bem, sem grandes estragos da parte deles nem vergonhas incomportáveis, da minha. Só quando nos vemos obrigados a lidar com os imponderáveis é que tudo se complica. Nessas alturas, a realidade implode de forma impiedosa com os bonitos princípios cívicos, reduzindo-os a escombros. Um exemplo? o xixi. É um axioma: a vontade de fazer xixi (não treinável nem educável) surge nos piores momentos e sempre quando a casa de banho mais próxima se encontra distante de nós assim como a terra da lua. Nas viagens de carro, então, é certinho: logo após o arranque, ou imediatamente a seguir à passagem da estação de serviço, lá vem o mãeeeee, estou aflitinhooo!. E é ver-nos ali, à beira da estrada, agachados, a pegar neles com esforço (chumbinhos!), o sangue a afluir-nos à cabeça enquanto sacudimos um rabito ou uma pilita que teimam em pingar, ping, ping, então, já está? ainda não, mãeeee. O pior é quando não é uma questão de distância mas de pura e simples urgência, mãeee, que eu não aguento!, só um bocadinho, filho, a pastelaria é mesmo ali à frente, ai que faço nas cuecas, tu não me faças xixi nos estofos do carro, estamos quase, quase... aiiiii!
Solução? Parar o carro no meio da cidade e pôr a criancinha a fazer xixi contra a berma do passeio, como um cãozinho, e fingirmos que não vemos os olhares de nojo e censura dos transeuntes, que gente tão porca, credo, nem sabem usar uma casa de banho. Sinceramente, entre os estofos do carro e a berma do passeio, a escolha parece-me óbvia. Mas quem o entende? Quem?...a não ser aqueles que hoje passam (ou algum dia passaram) por idêntica humilhação?
Sexta-feira, Março 11, 2005
alguém me explica onde raio
Se pensarmos que a dentição completa são trinta e dois dentes (no meu caso vezes três) estão a ver a quantidade de vezes cá em casa em que o raio da fada tira dente, põe moeda, deixa prendinha, tira dente, põe moeda, deixa prendinha...é que não se aguenta.
Quando eu era miúda, não me lembro de ter tido fantasias com fadas dos dentes e muito menos me lembro do destino dado aos meus dentes de leite. Até porque acho uma coisa um bocado nojenta, se querem que vos diga. A visão do fiozinho de ouro no pescoço de certas mãezinhas, com o dentinho do rebento a penduricalhar, dá-me náuseas. Sei que algures numa caixinha numa gaveta, tenho vários dentes de leite em três compartimentos diferentes, mas não me apetece nada ir vê-los.
No que respeita aos despojos físicos que eles vão deixando para trás, fico-me pelas madeixinhas de cabelo coladas no álbum do bebé e mesmo essas, sinceramente, lembram-me as relíquias dos santos. Para ajudar à festa, numa noite destas de insónia vi um filme de terror em que a fada dos dentes era um fantasma assassino que matava as mães dos meninos (não estou a inventar!) e que tinha uma cara ectoplásmica muita, mas muita feia e assustadora.
Resumindo: um mito infantil daqueles idiotas, que só ajuda à pedinchice de mais doces e tostões. Bardamerda para quem o anda a espalhar por aí, pardon my french.
diálogo politicamente incorrecto que suscitou a (ir)reflexão anterior:
- mãe, a fada não veio durante a noite, o meu dente ainda está lá.
- pois, se calhar deixou-se dormir. Vais ver que vem durante o dia, enquanto estiveres na escola.
...
- mãe, a fada não veio durante o dia, o dente ainda está de baixo da almofada.
- pois, a fada não pôde, sabes, tinha muito que trabalhar, não teve tempo...
- mas mãe, quando é que a fada...
- porra pá, que não existe fada nenhuma! tu vais fazer nove anos, estás parvo ou quê? não te pude comprar nada, são oito da noite e eu estive o dia todo a trabalhar. Agora, desanda.
Sexta-feira, Março 04, 2005
ou melhor, eram os tazos, uns míseros círculos de cartolina com pokémons vários, um por cada bolycao. De um dia para o outro, as crianças portuguesas ganharam do dia; desejo que desaparecia como que por magia após a abertura do pacote e o resgate do ansiado tazo. Durante um tempo pairou no ar o mistério: ninguém sabia explicar o porquê de tantos pães abandonados e intactos, nos caixotes do lixo das pastelarias.Com os tazos faziam-se montes, o adversário atirava um dos seus (o mais poderoso, claro!) ao monte do outro e arrebanhava todos os que ficassem virados para cima. Os montes iam ficando serras da estrela, depois everestes e era sempre a abrir e a subir, na mão dos melhores artistas. E assim se fizeram grandes fortunas.
Depois vieram os tristemente falhados nox, a resposta tardia da Matutano aos primeiros, a reboque dos chipicaos, pringles e cheetos.* Agora, são os waps. Os malfadados waps. De vantagem só têm uma: são comprados avulso e não implicam a ingestão de nenhuma porcaria hipercalórica com derivados cancerígenos. De resto, são uns quadraditos de plástico também com pokémons (claro!), uns vergonhosos setenta cêntimos cada três, que funcionam como cromos: coleccionam-se e trocam-se os repetidos. Só que, ao invés da caderneta da praxe, guardam-se numa mala grande e pesada que custa a módica quantia de dez euros e não dá jeito levar para lado nenhum. A miudagem esgatanha-se e obceca-se, a ver quem arrecada mais em menos tempo. O objectivo acabar a colecção é secundário, pois no acumular é que está o ganho, o prestígio perante os amigos e o sucesso com as miúdas. Ter waps é MUITO IMPORTANTE, portanto, não se coloca a hipótese de NÃO comprar, não sei se me faço entender.
Resta-me aguardar a próxima ofensiva de marketing contra as minhas crianças. Vou ali sacar as armas, poli-las, oleá-las, afiná-las e pô-las a jeito, que isto nunca se sabe quando eles vão voltar a atacar. Embora, nesta luta desigual, não haja arsenal nuclear que me valha.
* fonte bibliográfica: professor doutor filho do meio.
Domingo, Fevereiro 27, 2005
Numa família de cinco, vírus que ataca um, ataca todos.
Todos, excepto a mãe-malabarista-equilibrista-analgésica-antipirética que, por entre pijamas e chãos vomitados, termómetros e choros choramingados, exibe o seu número circense. Porque ela, meus senhores, meniiinos e meninaaaas, tem a fantástica capacidade de acudir a várias barrigas barulhentas de uma só vez, com a ligeireza de um triplo mortal!
Tcharaaaaaaan.
Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005
de onze anos, não se aguenta no mesmo metro quadrado que o meu filho do meio, com oito. Ao pé dela, ele não pode falar, não pode comer, não pode cantar, não pode existir. Os barulhos dele incomodam-na, os raciocínios dele exasperam-na, as brincadeiras dele irritam-na. Inconscientemente separamo-los, hoje vais para os avós, amanhã vais tu, e separamo-nos, eu vou com ela e tu ficas com eles, única hipótese de tréguas na guerrilha urbana que por vezes se vive cá em casa. Ao mínimo nãomotivo, uma raiva irracional irrompe por ela fora, transformando uma miúda doce e compassiva num animal selvagem em defesa do território. Eu, filha única, alheia às erupções violentas do amor fraterno, não cesso de me interrogar se a culpa é minha e se estarei a falhar em alguma coisa. Irmãos e irmãs de irmãos e de irmãs, dizem-me que não me aflija, que é mesmo assim e que ambos não passam de peões numa batalha de ciúmes mastigados, à conquista dos mesmos espaços, coisas e afectos. E que, na maior parte das vezes, os grandes ódios de infância degeneram em grandes amizades adultas. Renhidas, pejadas de arestas, cortantes, mas figadais. Deus queira.
Domingo, Fevereiro 20, 2005
estes cinco anos de gente são sempre a aviar
- Ó mãe, nos humanos diz-se corpo humano. E nos animais, diz-se corpo animal?
- ...
Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005
sabe bem do que falo.
Chave na porta ao fim do dia, entra-se em casa e um cheiro pestilento esmurra-nos com violência as narinas.
- Olha, o cão fez outra vez cocó em casa!
- Ou então vomitou no tapete!
- Quem é que não puxou o autoclismo?
- Raios! Deixei a comida fora do frigorífico e agora azedou!
- O queijo da serra! Quem deixou o queijo da serra destapado?
- Ah!...afinal foi o Diogo que descalçou os ténis na sala.
(é que não se aguenta!)
Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005
estive razoavelmente doente.
E os meus filhos trataram de mim: levaram-me leitinho com mel à cama, gritaram baixinho para não me incomodarem, deixaram-me dormir a sesta, foram à rua fazer-me recados, cozinharam-me um pão-de-ló, deram-me os comprimidos a horas e pegaram-me na mão enquanto eu ardia em febre.
Só os filhos, para transformarem a nossa agonia numa meiga agonia.
Sábado, Fevereiro 05, 2005
1. A Catarina, 9 anos, em frente ao PC, procura o site brasileiro da Turma da Mônica (aquela do Cebolinha e do Cascão). Ó mããããã-iiii, como é que vou lá-ááá?
(mãe na cozinha, às voltas com a panela da sopa)
Então, filha, o site deve ser importante porque os desenhos são conhecidos em todo o mundo, por isso experimenta m-ó-n-i-c-a-ponto-cê-ó-éme.
Por acaso, a mãe (desperto o instinto face ao silêncio súbito), larga a panela, vem espreitar à sala e o que vê? A inocência da filha especada em frente à página inicial de uma outra Monica, esta, uma genuína porn star americana que, nua e de perna aberta, exibe de frente e em todo o esplendor, dois grandes atributos siliconados e vários piercings nos lábios (sendo que não me refiro aos da boca). Animada pelo Flash, a nossa Monica interactiva geme em movimentos pendulares.
Nunca, até esse dia, a mãe havia mergulhado em voo picado para uma ficha eléctrica nem, muito menos, havia conseguido desligá-la em 0,0001 segundos. Mas foi o que fez (embora esfolasse o cotovelo na aterragem).
2. O Bernardo e um amigo, ambos com 10 anos, jogam Harry Potter no PC. Incentivados pela crescente desatenção parental, minimizam o jogo, entram no ambiente de trabalho, clicam furtivamente no internet explorer e aterram no google. Intrigados com os mistérios da sua própria anatomia em transformação, decidem ampliar conhecimentos e escrever na janelinha de busca a palavra pilas. Surge-lhes como resultado da busca, 100.987 páginas, sendo as 100 primeiras os sites espanhóis da Duracell, da Bosch, da Energizer, da Sony e por aí fora.
Chateados, ficam-se pela página 22, a curiosidade insatisfeita e já morta de tédio (embora, em contrapartida, tenham ficado a saber muito sobre pilhas e a duração das respectivas cargas).
Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005
" V PR O PARK N ME LIGX PORK N LEVO TEL."
" POD M VIR BUXKAR AX 6 PK HOX N TIVE TEXTEX ?"
Alguém tem por aí um dicionário adolescente/adulto-adulto/adolescente, que me empreste? E,já agora, um que tenha o significado não apenas de PALAVRAS, mas também de EMOÇÕES?
Agradecida.
Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005
àqueles cinco anos de gente, o princípio de Lavoisier, deu nisto:
- Ó mãe, explica-me lá outra vez como é que gente morre e depois nascemos como flores e minhocas, que eu não percebi.
Segunda-feira, Janeiro 31, 2005
sei
E porque quem meus filhos beija, minha boca adoça, que Deus ou entidade equivalente os abençoe, a estes ricos meninos.
Domingo, Janeiro 30, 2005
Sexta-feira, Janeiro 28, 2005
chego à escola a meio da manhã
No meio da confusão, descubro-o lá ao fundo lavado em lágrimas por não sei por quê. Cedo à tentação animal de correr, de lhe lamber as lágrimas e de o embalar no meu colo. Aproximo-me dele com calma, limpo-lhe as lágrimas com a palma da mão e enquanto lhe entrego a mochila, pergunto-lhe o que se passou. Segue-se um arrazoado dos amigos, mais lágrimas, as gagas justificações dos inimigos, e ainda mais lágrimas. Em resumo, está na moda um jogo com uma espécie de tazos, que são usados em apostas. Só que os maiores fazem batota e amanham-se com os tazos dos mais fracos.
Sinto a minha mão indecisa entre disparar para a bochecha do ladrão badocha, ou abrir-lhe à força os dedos, que apertam ciosos a porcaria dos tazos que acho que são do meu filho. Na incerteza, baixo a mão.
Cedo ainda à vontade de voar à papelaria da esquina, comprar todo o stock de tazos e cobrir com eles a tristeza do meu filho.
Por fim, dou-lhe um beijinho, faço-lhe uma festa na cabeça como que a dizer deixa lá, não ligues, atiro um olhar de lança-chamas ao badocha, que se encolhe, e vou-me embora, com o coração esmifrado, torcido e apertado como num torno.
É um facto: no microcosmos social que é o recreio, impera a lei do mais forte e não há professora ou vigilante que o possam impedir. Sinto que devo estar mais atenta.
Quarta-feira, Janeiro 26, 2005
paz!
Estou convencida de que, se em vez dos paralelos de calçada que são o Bush e o Sharon, pusessem uma mãe de dois, três ou mais - uma qualquer, dessas que há para aí aos milhares pelo mundo - a tentar resolver, por exemplo, o conflito no médio oriente, já a terrinha santa se encontraria toda divididinha, as fronteiras bem demarcadinhas e cada um no seu canto, a viver contentinho e em paz.
Segunda-feira, Janeiro 24, 2005
eternidade
- não sei, filho, há quem diga uma coisa, outras pessoas dizem outra...olha, como nunca morri, se queres que te diga, não sei.
(silêncio prolongado. os carros lá fora. as travagens. as buzinas. as pessoas. a cidade a mexer. a dúvida a remexer.)
- mas mãe...quem é que gostavas que ganhasse?
(eu longe. em casa. no cinema. na revisão do carro. nas coisas por pagar. no jantar por fazer.)
- que ganhasse o quê, filho?
- sim, gostavas que ganhassem os que acham que se vive outra vez ou os que acham que morremos para sempre?
- Gostava que ganhassem os que acham que vivemos outra vez. Era bem mais giro.
(silêncio breve. brevíssimo. satisfeito. completo.)
- Pois. Era só viver...e viver...e viver...e viver....e toda a gente a viver...a viver... a viver... a viver...
(e lá fomos a viver e viver e viver até casa. felizes. a imaginar a eternidade do nosso amor)
Quinta-feira, Janeiro 20, 2005
intervalo de ser mãe
Acordar a meio do sono,
pôr os pés frios no chão e
descansar no abandono
em frente à televisão.
Espreitar o sexo explícito,
um bom filme de terror
ou o vendedor solícito
a impingir um aspirador.
É naquela hora roubada
em que tudo me diverte
que eu fico ali sossegada
numa transgressão calada
até que a manhã (os) desperte.
Quarta-feira, Janeiro 19, 2005
insónia
Termos um filho que não dorme de noite
durante o primeiro ano de vida,
muda-nos para sempre.
Tempos depois, ainda
olhamos para o cair da noite com um ligeiro travo de angústia e
acordamos em sobressalto com o mero restolhar dos sonhos.
Terça-feira, Janeiro 18, 2005
a caminho da escola
- Mãeee, porque é que os nossos ossos não caem?
(e eu sei lá?! aperta mas é o cinto!)
- Olha querido, porque yadayadayada... sabes os Legos, que encaixam uns nos outros? yadayadayada.
- Mãeee, então os ossos são de plástico?
(mas que raio de pergunta logo às 8 da manhã... )
- Não, querido, são feitos de várias substâncias...yadayadayada... têm cálcio... yadayada.
- Mãe, acho que não percebes nada disto.
Segunda-feira, Janeiro 17, 2005
numa família de cinco
Excepto a mãe-malabarista-equilibrista-analgésica-antipirética que, por entre pijamas e chãos vomitados, termómetros e choros choramingados, exibe o seu número circense.
Porque ela, meus senhores, meniiinos e meninaaaas, tem a fantástica capacidade de acudir a várias barrigas barulhentas de uma só vez, com a ligeireza de um triplo mortal.
Tcharaaaaaaan.
Sábado, Janeiro 15, 2005
Duzentos quilómetros de onomatopeias depois, e varreu-se-me a tristeza miudinha de saber que vai passar a ver o mundo através de lentes inquebráveis. O que interessa é que veja o mundo.
Quinta-feira, Janeiro 13, 2005
à noite
E então fico quietinha, muito quietinha, debaixo dos lençóis, a estender mentalmente os meus braços, as minhas pernas e as minhas asas protectoras sobre quem dorme por perto, esperando que a dor nunca repare neles.





















